20.12.11

Mais um sobre o caso de enfermeira e a sociedade brasileira perdida


A enfermeira histérica e a nação infantiloide

por Diogo Luz / revista Bula
O estado patriarcal deste início de século XXI transformou o homem moderno numa massa uniforme de insegurança. O isolamento predominante nas grandes metrópoles modificou o caráter social do ser humano, despertando uma carência afetiva que precisa ser alimentada no mingau ralo dos substitutivos emocionais. A internet e os animais de estimação acabaram assumindo o papel de companheiros matrimoniais. Não é de se espantar a onda de indignação que varreu a grande rede após a divulgação de imagens de uma enfermeira espancando até a morte um cachorro da raça Yorkshire, em Formosa, no Estado de Goiás, na sexta-feira, 16.
O filósofo Janer Cristaldo abordou a estranha relação entre homens e animais no livro “O Paraíso Sexual Democrata”, uma ácida análise da social democracia na Europa e especificamente na Suécia. Ele cita a legislação alemã como um exemplo de desvirtuação proporcionada pelo politicamente correto no estado de bem-estar social. “A lei dispõe que um cão pastor necessita de 12 m² para habitar, enquanto um imigrante necessita de apenas 8 m²”. Citando o zoólogo Desmond Morris, o livro toca no ponto central do drama infantiloide vivenciado pela população dos países desenvolvidos e em ascensão econômica: “Afeto todos têm a oferecer, o problema é recebê-lo. O cão aceita incondicionalmente toda ou qualquer manifestação afetiva, sadia ou neurótica, expressada em pontapés ou afagos. Daí seu status”.
A quebra dos laços sociais alçou os animais de estimação à categoria de senhores absolutos. Não se aprende mais lições de vida com iguais, mas com cachorros e gatos, como atestam best-sellers como “Marley & Eu” e a incontável soma de genéricos da mesma lavra que tomaram de assalto as prateleiras das livrarias nos últimos anos. Cães e gatos muitas vezes recebem uma fatia maior do orçamento familiar do que os próprios filhos, isso quando eles não são completamente substituídos pelos seres de cauda. Nessa cadeia alimentar de sentimentalismo, as imagens da violência contra o cachorro despertaram nos brasileiros um horror que não seria atingido caso a vítima compartilhasse a mesma sequência genética dos indignados. A violência da enfermeira não golpeou apenas um ser indefeso, ela também acertou em cheio o vazio afetivo de toda uma nação.
Na projeção coletiva, exposta principalmente por meio das redes sociais, a defesa automática dos valores pernetas, mas caros à população, impulsionou uma resposta violenta ao crime cometido pela mulher. A imensa maioria dos comentários no Facebook e Twitter não exigia apenas cadeia pela morte do animal, mas que a agressora sofresse a mesma violência da qual o bicho foi vítima, ou ainda a pena de morte e tortura. Não tardou para que um crime corriqueiro, como atesta o delegado titular da Delegacia de Proteção ao Meio Ambiente, Luziano Severino, terminasse como cavalo-de-batalha de políticos e assumisse uma parcela vasta do horário nobre.
A defesa da agressora, também por meio das redes sociais, evidencia o perfil de uma desequilibrada. Justificar uma agressão torpe diante de uma criança de colo pelas diatribes de um cachorro é passar um atestado de transtorno emocional — provável motivo da aquisição do animal, em primeiro lugar. Ainda que o crime tenha sido cometido com requintes de crueldade, ninguém espera que adultos saudáveis sugiram que a punição natural seja atirar a mulher para ser devorada por pitbulls raivosos e tampouco que as autoridades colaborem colocando mais lenha na fogueira ao divulgar detalhes do processo.
A imprensa é a responsável por informar o público de assuntos de interesse da massa. Os funcionários estatais devem zelar pela tramitação técnica do caso e também garantir a segurança física da investigada. Ainda que pessoalmente discorde em parte dos termos, o direito à vida vale tanto para Fernandinho Beira-Mar quanto para uma enfermeira neurótica, mesmo que eles não concedam igual benefício às suas vítimas. Isso é o que difere pessoas honestas de bandidos e a democracia do totalitarismo.
Todos os dias a população abdica cada vez mais das relações humanas por seus substitutos felpudos. Agora, estão dispostos a abrir mão da razão e da própria humanidade para fazer justiça pelos seus animais. Enquanto isso, seis ministros caíram do governo federal devido a suspeitas de corrupção, morreram 50 mil pessoas vítimas da violência no último ano e o Estado avança dentro dos lares para ditar se um pai pode ou não castigar fisicamente os próprios filhos. Pelo visto, um tapa ou outro é permitido numa criança, mas nem pense em fazer o mesmo com um cachorro. Pode ser o seu último ato.

Atividade: Leia e reflita sobre o texto acima e destaque os trechos em que o autor se refere à ética humana, explicando sua seleção.

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