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12.6.09

Criança, a alma do negócio (Brasil)

Faça uma resenha crítica sobre o documentário "Criança, a alma do negócio". Reflita ainda sobre a postura dos adultos apresentada no filme.
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Filmes e documentários - Criança, a alma do negócio (Brasil)

Por que meu filho sempre me pede um brinquedo novo? Por que minha filha quer mais uma boneca se ela já tem uma caixa cheia de bonecas? Por que meu filho acha que precisa de mais um tênis? Por que eu comprei maquiagem para minha filha se ela só tem cinco anos? Por que meu filho sofre tanto se ele não tem o último modelo de um celular? Por que eu não consigo dizer não? Ele pede, eu compro e mesmo assim meu filho sempre quer mai. De onde vem este desejo constante de consumo?

Este documentário reflete sobre estas questões e mostra como no Brasil a criança se tornou a alma do negócio para a publicidade. A indústria descobriu que é mais fácil convencer uma criança do que umn adulto, então, as crianças são bombardeadas por propagandas que estimulam o consumo e que falama diretamente com elas. O resultado disso é devastador: crianças que, aos cinco anos, já vão à escola totalmente maquiadas e deixaram de brincar de correr por causa de seus saltos altos; que sabem as marcas de todos os celulares mas não sabem o que é uma minhoca; que reconhecem as marcas de todos os salgadinhos mas não sabem os nomes de frutas e legumas. Num jogo desigual e desumano, os anunciantes ficam com o lucro enquanto as crianças arcam com o prejuízo de sua infância encurtada. Contundente, ousado e real este documentário escancara a perplexidade deste cenário, convidando você a refletir sobre seu papel dentro dele e sobre o futuro da infância.

Direção Estela Renner
Produção Executiva Marcos Nisti
Maria Farinha Produções
Ano: 2008
Duração: 49 minutos
Formato DVD
Formato AVI

Veja aqui o documentário

23.12.08

Ler devia ser proibido

3.11.08

Entrevista com Demétrio Magnoli

Uma vitória da razão

Para o sociólogo, as últimas eleições mostraram que os brasileiros não se deixam mais levar pela conversa de que toda esquerda é boa e toda direita é má

foto Lailson Santos

O paulistano Demétrio Magnoli, de 49 anos, faz parte de uma categoria de intelectuais – rara no Brasil – que se notabiliza tanto pelo conhecimento acadêmico, como pela habilidade para escrever sobre temas complexos de maneira clara e objetiva. Sociólogo e doutor em geografia humana, Magnoli integra o Grupo de Análises da Conjuntura Internacional, da Universidade de São Paulo, e é autor de mais de uma dezena de livros didáticos. Em sua coluna nos jornais O Estado de S. Paulo e O Globo, ele expõe análises aprofundadas de política mundial e críticas incisivas às manifestações de pensamento único na sociedade e no governo brasileiros. Magnoli concedeu, descalço, a seguinte entrevista a VEJA, em seu apartamento, em São Paulo.

Os conceitos de esquerda e direita estão ultrapassados?
Não, desde que sejam compreendidos no marco da democracia. No sistema democrático, há uma tensão permanente entre liberdade e igualdade. A primeira está associada à direita democrática, para a qual existe um conjunto indissociável de liberdades: a de expressão e organização, a econômica e a de pluralidade de opiniões. Já o conceito de igualdade está associado à esquerda democrática, que defende a necessidade de restringir um pouco a liberdade econômica para que as desigualdades não cresçam muito. As democracias maduras oscilam entre a direita e a esquerda, em busca ora de mais liberdade, ora de mais igualdade. Essa é a história das eleições na Europa e nos Estados Unidos no último meio século. Acredito que a história do Brasil também será essa. Trata-se de algo muito diferente dos conceitos de esquerda e direita não-democráticas, estes, sim, ultrapassados.


"O filósofo francês Raymond Aron disse que o marxismo é o ópio dos intelectuais.
Isso porque lhes oferece a ilusão de que são donos de um saber maior: o do fim
da história. É natural que uma ideologia que afirme isso os seduza"



Em certos círculos, dizer que algo é "de direita" serve para desqualificar desde filmes até valores morais. Qual é a explicação para esse uso do termo "direita"?
A palavra "direita" esteve associada no século XX ao fascismo e ao nazismo. Tais regimes foram condenados de maneira absoluta pela população mundial. Em países da América Latina, em particular, a direita foi ligada a regimes militares. Por isso, no Brasil, a expressão "direita" ainda é usada, embora cada vez com menor freqüência, como sinônimo de tudo o que deve ser rejeitado. Já o termo "esquerda" costuma ser relacionado a uma idéia de transformação humanista do mundo, imaginada a partir da Revolução Francesa e das lutas sociais do século XIX. Muita gente esquece que elas, em sua origem, deceparam milhares de cabeças por meio da guilhotina. Assim como esquece a brutalidade do stalinismo e do maoísmo, no século XX.

O senhor acredita que o preconceito contra a direita tende a diminuir?
Sim, e isso acontece quando um país experimenta a esquerda no poder, como é o caso do Brasil, hoje. Nos países de democracia madura, o argumento "isso é de direita" não serve para encerrar uma discussão. Não gosto do governo Lula, mas ele está sendo bom para o nosso amadurecimento político. O PT no poder revelou a esquerda que faz o mensalão, persegue o caseiro, tenta controlar os meios estatais para os seus próprios fins e confunde estado com governo e partido. Com o tempo, os brasileiros vão se convencer de que os partidos de direita e de esquerda devem existir dentro de um mesmo espectro político, desde que aceitem a democracia. Essa mudança de percepção pode ser verificada nas últimas eleições municipais. A classe média de São Paulo, que no passado votou em massa em candidatos do PT, agora elegeu Gilberto Kassab e não o vê como um candidato da velha direita – apesar de pertencer ao DEM, o antigo PFL. Os eleitores não compraram a idéia de que as eleições eram a luta do bem contra o mal, como a campanha do PT tentou vender. O PT imbuiu-se, nessas eleições, da missão de eliminar o DEM. A idéia de eliminar um partido, de centro-direita ou não, é antidemocrática. O que o discurso do PT revela é o desejo de ser partido único. Resultado: a classe média que acreditou no PT agora desconfia de sua natureza democrática.

Pode-se dizer que a ideologia serviu de pretexto para a corrupção do PT?
A corrupção é um fenômeno muito antigo na história do Brasil e completamente suprapartidário. O que espantou muita gente foi o estilo PT de corromper – e que, claro, tem a ver com a sua visão de mundo. O partido apresentou um modo centralizado de praticar a corrupção. Ao contrário da prática tradicional, feita em nome de interesses localizados, o PT deliberou e organizou a corrupção a partir da sua cúpula. Isso provocou uma ruptura muito grande entre o partido e boa parte do seu eleitorado tradicional, principalmente nas grandes cidades.

A vontade de ser partido único não é um anacronismo?
A verdade é que a queda do Muro de Berlim fez muito mal ao PT. O fracasso da União Soviética e de seus satélites no Leste Europeu tirou de cena o foco da crítica petista, que em sua origem repudiava o chamado socialismo real. A partir daí, o partido tomou um rumo regressivo e foi dominado por três grupos. O primeiro é a corrente de origem castrista, representada, entre outros, por José Dirceu. O segundo é o dos sindicalistas, notadamente os que controlam a CUT. O terceiro é formado pelas correntes católicas ligadas à Teologia da Libertação, cujo principal representante é Frei Betto, que foi um alto assessor de Lula. Com isso, o PT adotou uma ideologia retrógrada do estado como salvador da sociedade. Deixou de fazer qualquer crítica ao socialismo real – a não ser em dias de festa, em documentos para inglês ver – e passou a falar como um velho partido comunista de outros tempos. O PT se tornou uma agremiação de esquerda estatizante, para a qual a história é uma ferrovia cujo destino final é a redenção da humanidade – e que vê a si própria como a locomotiva do comboio. Esse é o conceito de história que deveria ter desaparecido depois de 1989, com a queda do Muro de Berlim. Ao encampá-lo, o PT se tornou uma espécie de relíquia.

Por que a universidade brasileira ainda é um centro irradiador do marxismo?
Isso é verdade apenas em parte. Há bastante crítica à esquerda tradicional e stalinista nas universidades. Mas, sem dúvida, é fato que existe um apoio grande a essa ideologia no meio acadêmico. O filósofo francês Raymond Aron (1905-1983) disse que o marxismo é o ópio dos intelectuais. Isso porque o marxismo lhes oferece a ilusão de que são donos de um saber maior: o do fim da história. Como conseqüência, os intelectuais teriam a função de dirigir a sociedade. É natural que uma ideologia assim os seduza. Afinal de contas, dá a eles uma perspectiva de poder, influência e prestígio que o simples compromisso com a democracia não permite.

O que explica a ascensão dessa esquerda obsoleta em países da América Latina?
A falta do espelho do socialismo real na União Soviética e no Leste Europeu faz com que a esquerda latino-americana se entusiasme com governantes como Hugo Chávez. A esquerda latino-americana ainda imagina que deve construir o mundo de novo. Chávez, da Venezuela, Evo Morales, da Bolívia, Rafael Correa, do Equador, e Lula são muito diferentes entre si. Mas o que há em comum entre os partidos e os movimentos que apóiam esses governantes é a noção do estado como instrumento de salvação. Essa é uma idéia fundamentalmente antidemocrática. Não há nada parecido com isso fora da América Latina.


"A hostilidade à liberdade de imprensa é tão ampla no PT que apareceu em uma
resolução oficial da direção nacional do partido, durante o escândalo do
mensalão. O documento acusava os veículos de comunicação de golpismo"


Quem são os principais entusiastas de Chávez no Brasil?
Não é verdade que o PT como um todo siga Chávez, mas existem no seu interior correntes que o fazem. O chavismo exerce forte sedução sobre a sua Secretaria de Relações Internacionais. Acho triste que a direção nacional do partido tenha chegado ao ponto de soltar uma nota oficial em apoio ao fechamento, por motivos políticos, do canal venezuelano RCTV. Essa nota não foi contestada pelos parlamentares do PT de quem se esperaria uma palavra em defesa da democracia, como Eduardo Suplicy e José Eduardo Cardozo.

Como o senhor avalia a política externa brasileira?
A política externa brasileira tem duas cabeças. A oficial, que segue a linha histórica do Itamaraty, e a extra-oficial, que é a política externa do PT, representada por Marco Aurélio Garcia, assessor de Lula, que boicota a diplomacia tradicional. Garcia acha que a integração latino-americana deve ser feita em bases nacionalistas e antiamericanas, quase chavistas. Ele recusa que a América do Sul deva participar da globalização – o que significa recusar a realidade. Por isso, o Brasil deixou de falar duro com Evo Morales diante do aparatoso cerco militar às instalações da Petrobras, das intimidações contra agricultores brasileiros na Bolívia e da ruptura unilateral de contratos que estabeleciam o valor das refinarias. Logo, logo vamos ter uma crise no Paraguai. Temo que o governo Lula faça pouco para defender os agricultores brasileiros naquele país.

O ministro da Justiça, Tarso Genro, o processou em 2006 e depois retirou a acusação. O que ocorreu?
Ele abriu um processo em razão de um artigo que escrevi, intitulado "Ministério da classificação racial". No ano anterior, Tarso Genro, o ministro itinerante do governo Lula, ocupava a Pasta da Educação e determinou que as escolas brasileiras passassem a incluir o item "raça/cor" nas fichas de matrícula dos alunos. Tarso Genro abriu um processo penal contra mim – e por meio da Advocacia-Geral da União – porque critiquei essa medida. Quando foi indicado para o Ministério da Justiça, ele retirou o processo. Imagino que considerou constrangedora a possibilidade de um ministro da Justiça perder um processo. Sabe-se que Tarso Genro, no Rio Grande do Sul, abria processos em grande quantidade contra jornalistas, para intimidá-los.

Essa estratégia de intimidação, aliás, passou a ser muito usada por setores do governo.
Existem divergências dentro do governo sobre liberdade de imprensa. Alguns membros do governo e do PT acham que se trata de um valor fundamental. Outros, e são muitos, acreditam que o país ideal é Cuba, onde há um partido único e um jornal único. A hostilidade à liberdade de imprensa é tão ampla no PT que apareceu em uma resolução oficial da direção nacional do partido, durante o escândalo do mensalão. O documento acusava os veículos de comunicação de golpismo.

No início da década de 90, os pais dos alunos de um colégio tentaram impedir que um professor adotasse um livro seu, sob o argumento de que o senhor era comunista. Sua visão de mundo mudou ou os pais estavam errados?
Minha visão de mundo não é a mesma de vinte anos atrás nem, menos ainda, a de trinta anos atrás. Na faculdade, nos tempos da ditadura militar, eu participei de uma organização trotskista, a Liberdade e Luta (Libelu), cujo verdadeiro nome era Organização Socialista Internacionalista. Quando escrevi meus primeiros livros, no entanto, já havia rompido com a organização e não me via mais como alguém de esquerda ou comunista. Meu primeiro livro didático, de 1989, era detestado pela esquerda. Talvez os pais desse colégio estivessem um pouco assustados com fantasmas do passado.

Como é a relação com os seus amigos que ainda nutrem admiração por figuras como Che Guevara e Hugo Chávez?
Eu não tenho amigos que gostam de Hugo Chávez, Che Guevara ou Fidel Castro. Simplesmente porque nunca tive amigos stalinistas. Eu tenho amigos que os trotskistas consideram pertencentes à direita feroz. Quando convido todos para uma mesma festa, começa um debate que, obviamente, nunca vai terminar. O debate político não deve impedir as pessoas de se tratar decentemente, mas a atividade intelectual pressupõe o exercício da crítica. Intelectuais que elogiam governos têm algum problema. Provavelmente querem um emprego.
Fonte: revista VEJA - Edição 2085 - 5 de novembro de 2008
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Exercício:
O trecho abaixo foi retirado da entrevista com o sociólogo Demétrio Magnoli. A partir da afirmativa, desenvolva uma redação dissertativa argumentando a respeito do pensamento do autor e mostrando exemplos acerca de suas idéias.
"As democracias maduras oscilam entre a direita e a esquerda, em busca ora de mais liberdade, ora de mais igualdade".
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“Salutar só é quando no espelho da alma humana se forma a comunidade inteira, e na comunidade vive a força da alma individual".


Rudolf Steiner
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Atividade:
Pesquise quem foi Rudolf Steiner, escreva um breve perfil dele e desenvolva uma redação com o tema da frase aqui publicada.
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31.10.08

Super Nanny



Super Nanny te faz refletir como a mim? Independentemente de qual tenha sido a origem deste programa, a questão do educar é posta à prova. De pais e filhos. Melhor: de pais capitalizados e filhos capitalizados. Sim! A questão nunca gira em torno da falta de dinheiro, das condições escolares, de política, economia ou algo que o valha, mas na falta de tempo dos pais para com os filhos. Basicamente! O que resulta na falta de atenção. Basicamente! Até que chega a hora e a vez da indisciplina infantil. Basicamente! E não há dinheiro que dê conta, basicamente! É quando entra a figura da babá, super, com suas dicas valiosas:

- pai, brinque com seu filho.
- mãe, imponha limites.
- programem passeios.
- tenham paciência, mostrem caminhos.
- digam o que é certo e o que é errado.
- faça-os entender: a casa, a rua, a escola, o bairro, o mundo.

Mas está aí um sistema de um capital feito para questionar. Enquanto pais, mães e sociedade se anulam para produzir e consumir, crianças ficam à deriva. E o mercado foi esperto. Com pais e mães ausentes, as redes de proteção em janelas e sacadas passam a ser um bom negócio. O nicho cresce: tapa tomada, protetor de quina, trancas para portas e gavetas, protetor de fogão, babá eletrônica e companhia. É que crianças à deriva precisam mesmo de muita tecnologia: computadores e videogames para afastá-las dos perigos das ruas, celulares com GPS para a localização exata do rebento em caso de seqüestro.

Se o futebol quebrava vidraças em tempos idos, e era só confiscar a bola, hoje fica-se em casa. Resolvido o problema das vidraças, das janelas, das sacadas, das tomadas, das quinas das mesas, das portas, das gavetas, dos fogões, dos computadores, dos videogames, dos celulares, dos pais e das mães esquecidos dos filhos. De ensiná-los, de guiá-los, de educá-los física, moral e sociologicamente.

Mas até pra isso o capital deu conta: ligue pra Super Nanny, consuma Super Nanny. A parte boa é que no fundo do baú Mary Poppins da moçoila, os livros e a literatura infantil.
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Analisando o comentário da autora acerca das atitudes dos pais em relação aos filhos, nesta atualidade capitalista, qual você entende ser o ponto central do desencontro familiar: a sociedade capitalista em si ou uma desarmonia nas relações humanas?




Desenvolva seu argumento dando exemplos.


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22.10.08

O caso Eloá: honra e desonra na balança, de quem?

Feminicídio ao vivo: o que nos clama Eloá


por Maria Dolores de Brito Mota e Maria da Penha Maia Fernandes *



Adital - Tudo o que o Brasil acompanhou com pesar no drama de Eloá, em suas cem horas de suplício em cadeia nacional, não pode ser visto apenas como resultado de um ato desesperado de um rapaz desequilibrado por causa de uma intensa ou incontrolada paixão. É uma expressão perversa de um tipo de dominação masculina ainda fortemente cravada na cultura brasileira.


No Brasil, foram os movimentos feministas que iniciaram nos anos de 1970, as denúncias, mobilização e enfrentamento da violência de gênero contra as mulheres que se materializava nos crimes cometidos por homens contra suas parceiras amorosas. Naquele período ainda estava em vigor o instituto da defesa da honra, e desenvolveram-se ações de movimentos feministas e democráticos pela punição aos assassinos de mulheres.


A alegação da defesa da honra era então justificativa para muitos crimes contra mulheres, mas no contexto de reorganização social para a conquista da democracia no país e do surgimento de movimentos feministas, este tema vai emergir como questão pública, política, a ser enfrentada pela sociedade por ferir a cidadania e os direitos humanos das mulheres.


O assassinato de Ângela Diniz, em dezembro de 1976, por seu namorado Doca Street, foi o acontecimento desencadeador de uma reação generalizada contra a absolvição do criminoso em primeira instância, sob alegação de que o crime foi uma reação pela defesa "honra". Na verdade, as circunstâncias mostravam um crime bárbaro motivado pela determinação da vítima em acabar com o relacionamento amoroso, e a inconformidade do assassino com este fim. Essa decisão da justiça revoltou parcelas significativas da sociedade cuja pressão levou a um novo julgamento em 1979 que condenou o assassino. Outro crime emblemático foi o assassinato de Eliane de Grammont pelo seu ex-marido Lindomar Castilho em março de 1981. Crimes que motivaram a campanha "quem ama não mata".


Agora, após três décadas, o Brasil assistiu ao vivo, testemunhando, o assassinato de uma adolescente de 15 anos por um ex-namorado inconformado com o fim do relacionamento. Um relacionamento que ele mesmo tomou a iniciativa de acabar por ciúmes, e que Eloá não quis reatar. O assassino, durante 100 horas manteve Eloá e uma amiga em cárcere privado, bateu na vitima, acusou, expôs, coagiu e por fim martirizou o seu corpo com um tiro na virilha, local de representação da identidade sexual, e na cabeça, local de representação da identidade individual.


Um crime em que não apenas a vida de um corpo foi assassinada, mas o significado que carrega - o feminino. Um crime do patriarcado que se sustenta no controle do corpo, da vontade e da capacidade punitiva sobre as mulheres pelos homens. O feminicídio é um crime de ódio, realizado sempre com crueldade, como o "extremo de um continuum de terror anti-feminino", incluindo várias formas de violência como sofreu Eloá, xingamentos, desconfiança, acusações, agressões físicas, até alcançar o nível da morte pública.


O que o seu assassino quis mostrar a todas/os nós? Que como homem tinha o controle do corpo de Eloá e que como homem lhe era superior? Ao perceber Eloá como sujeito autônomo, sentiu-se traído, no que atribuía a ela como mulher (a submissão ao seu desejo), e no que atribuía a si como homem (o poder sobre ela - base de sua virilidade). Assim o feminicídio é um crime de poder, é um crime político. Juridicamente é um crime hediondo, triplamente qualificado: motivo fútil, sem condições de defesa da vítima, premeditado.


Se antes esses crimes aconteciam nas alcovas, nos silêncios das madrugadas, estão agora acontecendo em espaços públicos, shoppings, estabelecimentos comerciais, e agora na mídia. Para Laura Segato [1] é necessário retirar os crimes contra mulheres da classificação de homicídios, nomeando-os de feminicídio e demarcar frente aos meios de comunicação esse universo dos crimes do patriarcado. Esse é o caminho para os estudos e as ações de denúncia e de enfrentamento para as formas de violência de gênero contra as mulheres.


Muita coisa já se avançou no Brasil na direção da garantia dos direitos humanos das mulheres e da equidade de gênero, como a criação das Delegacias de Apoio às Mulheres - DEAMs, que hoje somam 339 no país, o surgimento de 71 casas abrigo, além de inúmeros núcleos e centros de apoio que prestam atendimento e orientação às mulheres vítimas, realizando trabalho de denúncia e conscientização social para o combate e prevenção dessa violência, além de um trabalho de apoio psicológico e resgate pessoal das vítimas. Também ocorreram mudanças no Código Penal como a retirada do termo "mulher honesta" e a adoção da pena de prisão para agressores de mulheres, em substituição às cestas básicas. A criação da Lei 11.340, a Lei Maria da Penha, para o enfrentamento da violência doméstica contra as mulheres.


Mas, ainda assim, as violências e o feminicídio continuam a acontecer. Vejamos o exemplo do Estado do Ceará: em 2007, 116 mulheres foram vítimas de assassinato no Ceará; em 2006, 135 casos foram registrados; em 2005, 118 mortes e em 2004, mais 105 casos [2]. As mulheres estão num caminho de construção de direitos e de autonomia, mas a instituição do patriarcado continua a persistir como forma de estruturação de sujeitos.


É preciso que toda a sociedade se mobilize para desmontar os valores e as práticas que sustentam essa dominação masculina, transformando mentalidades, desmontando as estruturas profundas que persistem no imaginário social apesar das mudanças que já praticamos na realidade cotidiana. O comandante da ação policial de resgate de Eloá declarou que não atirou no agressor por se tratar de "um jovem em crise amorosa", num reconhecimento ao seu sofrer. E o sofrer de Eloá? Por que não foi compreendida empaticamente a sua angústia e sua vontade (e direito) de ser livremente feliz?

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Notas:

[1] SEGATO, Rita Laura. Que és um feminicídio. Notas para um debate emergente. Serie Antropologia, N. 401. Brasília: UNB, 2006.
[2] Dados disponíveis em: http://www.patriciagalvao.org.br/apc-aa-patriciagalvao/home/noticias.shtml?x=1076


* Ma. Dolores: Socióloga, professora da Universidade Federal do Ceará / Maria da Penha: Inspiradora do nome da Lei Federal 11340/2006. Colaboradora de Honra da Coordenadoria de Políticas para Mulheres da Prefeitura de Mulheres
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Atividade:


Após leitura do texto faça uma coletânea de trechos publicados na imprensa que indiquem a "supremacia do homem sobre a mulher", ou em que a mulher seja subjulgada ainda que indiretamente seja pelo repórter, pela narrativa, por testemunhas etc.




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21.10.08

As faces do fato


“As disputas humanas, em geral, decorrem do fato de existirem, ao mesmo tempo, sábios e ignorantes, constituídos de maneira a verem apenas um lado dos fatos ou das idéias, cada um julgando ser a face que vê a única verdadeira, a única boa”.





(Balzac, na obra A Prima Bete, 1846)


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Sobre a afirmação de Balzac, acima, faça sua reflexão e comentário. Em seguida, recorte TRÊS exemplos de textos de revistas, jornais que ilustrem tal pensamento.
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15.10.08

Ensinar e aprender...



Demais não é o suficiente:
a arte do essencial
Por uma aprendizagem integral




Arte e texto

por Solange Pereira Pinto
Brasília, 30 de junho de 2008




A pós-modernidade é conhecida pelo consumo, pela superficialidade, pela rapidez, pelo “descartável”. É, sem dúvida, uma época marcada pelos excessos. Muitas plásticas, muita obesidade, muita informação, muito trabalho, muito estresse, muitos acessos... Mas como pode uma civilização, como a atual, marcada por tão elevadas quantidades carecer? Podemos indagar: como perceber que o “demais” nem sempre é o suficiente?

A humanidade ao longo de sua existência tem passado por auges e declínios dos povos, hoje chamados de nações, bem como tem se questionado sobre os motivos pelos quais ora se está em um patamar, ora em outro. Por outro lado, individualmente, interroga-se como encontrar respostas para os sofrimentos e as necessidades. As soluções, nem sempre fáceis de alcançar, em geral, reúnem alguns traços que podem ser comuns àqueles que se superaram, sejam como coletividade ou como cidadãos. Percebe-se que, nos vários tipos de conquistas que se deram, destacam-se: a inteligência, a consciência, o conhecimento e o esforço.

Perscruta-se que foi necessário ao homem libertar sua inteligência, esforçar-se e buscar o conhecimento para que pudesse ascender graus evolutivos. O pensamento, a ética, a moral, os valores, os princípios, a cultura, o desenvolvimento humano são frutos de seres que se esmeraram, e se esmeram, em manter livre o uso da razão e da consciência para darem a si e aos semelhantes condições dignas para traçar um destino nobre, espiritualmente elevado, favorável ao crescimento e à aprendizagem consciente.

No entanto, ao se ler os jornais e as revistas, ao se ouvir os noticiários da TV e do rádio, as pessoas se deparam com números e atrás deles cegamente correm; sejam eles os números da balança a indicar uns quilos a mais, sejam os números da conta bancária a refletir um gasto extra, sejam os números da última estatística educacional a mostrar a quantidade de escolas com notas superiores ou inferiores ao que se deve ser, ou outra quantidade qualquer. Vão dessa forma se tornando pesos mortos, massas de manobras, com pouca, ou quase nenhuma, atuação sociopolítica.

Envoltas em números, muitas almas são sufocadas e se sentem perdidas nesse mar informacional, que deveria mais servir ao despertar e menos ao aprisionamento dos indivíduos no calabouço da ignorância.

Todavia, há solução e se faz premente apresentá-la. Seria tal como apontar saída de emergência em um cinema lotado em caso de incêndio. Lá estão as pessoas vidradas em mais uma cena de aventura e a fumaça lhes corre pelo nariz, e, ainda assim, não a percebem. A porta que se abre não apenas as livra do sufoco; ela as liberta para o ar puro. É necessário que se encontre um rumo, além de que se adentre a sabedoria. Mas como fazê-los?

Transcendendo!

O conhecimento que adquirimos no mundo deve servir para alcançar a sabedoria e promover transformação. É pelo internalizado “saber” que o homem aperfeiçoar-se-á atuando com percepção moral e juízo elevado de valor. E, ao se desenvolver, com senso crítico, será exemplo inspirador de outros que assim busquem com vontade sobreviver às penúrias que devem suportar na vida.

Pelo estudo, pela leitura, pela palavra, pela escrita, pela educação dirigida que os seres humanos devem se orientar – não somente para aprender a satisfazer às necessidades da vida, mas, também, para resolver o que a vida lhes apresentar – visando atingir uma meta que lhes conduza ao caminho dessa tal Sabedoria .

Essa virtude tão requisitada e enigmática é deveras uma arte. Bem assim o são os atos de ensinar e aprender. Só se pode ensinar o que se sabe, não é óbvio? Ocorre que, ensinar, no sentido daquilo que transcende e modifica em prol da sabedoria, envolve meandros poucos discutidos pelo senso comum. Ensinar enseja observação, assimilação verdadeira, exemplo, escuta, consciência, humildade, generosidade. É um ato de iluminação real, ilustração.

A arte de aprender está do mesmo lado da moeda, ainda que aparentemente oposto, expressando as capacidades de bondade, elevação, caráter e vocação, dentre outras características, as quais somos capazes de estabelecer num plano que a natureza prima pelo aperfeiçoamento e evolução espiritual.

Essas inquietudes e necessidades do que se chama “espiritual” se manifestam. Os livros vêm e vão na tentativa de encontrar as chaves libertadoras das saídas. Em consonância, ensinar exige sabedoria, paciência, abnegação, novamente vocação...

Destarte, é pelo autoconhecimento, é pelo adentrar em umbrais da vida e das próprias sombras, é pelo movimento de auto-superação, é pelo descobrimento consciente dos agentes causais, é pelo entendimento das nuanças da alma, é pela transcendência da esfera comum, é pela consciência de si e do outro, é pelo conhecimento da mecânica do pensamento, é pela evolução consciente, é pelo discernimento, enfim é pela arte de aprender e pela arte de ensinar por “todo” que o nosso espírito se tempera e segue um novo e elevado destino.

Assim, é pelo essencial que o homem deve se guiar, pois muitas vezes há demais e não é suficiente. É preciso propagar a vontade de aprender. Ou, de outra maneira, haverá muita gente sufocada de “informações”, entretanto carente de conhecimento, porque é por meio da capacidade de estudo estimulado e consciente que se engrandecem os seres e se transformam as civilizações. É mediante a superação intrínseca que nos tornamos mais aptos a chegar ao pensamento supremo que encarna a vida universal.

Finalmente, vale ressaltar que “a arte de ensinar encontra sua máxima expressão na alma daqueles cuja vontade de aprender se faz possível. Assim como o bem que recebem e os saberes com os quais se instruem se completam e efetivam a realidade para o seu aperfeiçoamento integral”. É na busca incessante do essencial que se desperta para a consciência, e estando sempre alerta que: demais nem sempre é suficiente.
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Faça uma síntese de um parágrafo (máximo seis linhas) que retrate a idéia principal deste texto.
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