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20.12.11

Mais um sobre o caso de enfermeira e a sociedade brasileira perdida


A enfermeira histérica e a nação infantiloide

por Diogo Luz / revista Bula
O estado patriarcal deste início de século XXI transformou o homem moderno numa massa uniforme de insegurança. O isolamento predominante nas grandes metrópoles modificou o caráter social do ser humano, despertando uma carência afetiva que precisa ser alimentada no mingau ralo dos substitutivos emocionais. A internet e os animais de estimação acabaram assumindo o papel de companheiros matrimoniais. Não é de se espantar a onda de indignação que varreu a grande rede após a divulgação de imagens de uma enfermeira espancando até a morte um cachorro da raça Yorkshire, em Formosa, no Estado de Goiás, na sexta-feira, 16.
O filósofo Janer Cristaldo abordou a estranha relação entre homens e animais no livro “O Paraíso Sexual Democrata”, uma ácida análise da social democracia na Europa e especificamente na Suécia. Ele cita a legislação alemã como um exemplo de desvirtuação proporcionada pelo politicamente correto no estado de bem-estar social. “A lei dispõe que um cão pastor necessita de 12 m² para habitar, enquanto um imigrante necessita de apenas 8 m²”. Citando o zoólogo Desmond Morris, o livro toca no ponto central do drama infantiloide vivenciado pela população dos países desenvolvidos e em ascensão econômica: “Afeto todos têm a oferecer, o problema é recebê-lo. O cão aceita incondicionalmente toda ou qualquer manifestação afetiva, sadia ou neurótica, expressada em pontapés ou afagos. Daí seu status”.
A quebra dos laços sociais alçou os animais de estimação à categoria de senhores absolutos. Não se aprende mais lições de vida com iguais, mas com cachorros e gatos, como atestam best-sellers como “Marley & Eu” e a incontável soma de genéricos da mesma lavra que tomaram de assalto as prateleiras das livrarias nos últimos anos. Cães e gatos muitas vezes recebem uma fatia maior do orçamento familiar do que os próprios filhos, isso quando eles não são completamente substituídos pelos seres de cauda. Nessa cadeia alimentar de sentimentalismo, as imagens da violência contra o cachorro despertaram nos brasileiros um horror que não seria atingido caso a vítima compartilhasse a mesma sequência genética dos indignados. A violência da enfermeira não golpeou apenas um ser indefeso, ela também acertou em cheio o vazio afetivo de toda uma nação.
Na projeção coletiva, exposta principalmente por meio das redes sociais, a defesa automática dos valores pernetas, mas caros à população, impulsionou uma resposta violenta ao crime cometido pela mulher. A imensa maioria dos comentários no Facebook e Twitter não exigia apenas cadeia pela morte do animal, mas que a agressora sofresse a mesma violência da qual o bicho foi vítima, ou ainda a pena de morte e tortura. Não tardou para que um crime corriqueiro, como atesta o delegado titular da Delegacia de Proteção ao Meio Ambiente, Luziano Severino, terminasse como cavalo-de-batalha de políticos e assumisse uma parcela vasta do horário nobre.
A defesa da agressora, também por meio das redes sociais, evidencia o perfil de uma desequilibrada. Justificar uma agressão torpe diante de uma criança de colo pelas diatribes de um cachorro é passar um atestado de transtorno emocional — provável motivo da aquisição do animal, em primeiro lugar. Ainda que o crime tenha sido cometido com requintes de crueldade, ninguém espera que adultos saudáveis sugiram que a punição natural seja atirar a mulher para ser devorada por pitbulls raivosos e tampouco que as autoridades colaborem colocando mais lenha na fogueira ao divulgar detalhes do processo.
A imprensa é a responsável por informar o público de assuntos de interesse da massa. Os funcionários estatais devem zelar pela tramitação técnica do caso e também garantir a segurança física da investigada. Ainda que pessoalmente discorde em parte dos termos, o direito à vida vale tanto para Fernandinho Beira-Mar quanto para uma enfermeira neurótica, mesmo que eles não concedam igual benefício às suas vítimas. Isso é o que difere pessoas honestas de bandidos e a democracia do totalitarismo.
Todos os dias a população abdica cada vez mais das relações humanas por seus substitutos felpudos. Agora, estão dispostos a abrir mão da razão e da própria humanidade para fazer justiça pelos seus animais. Enquanto isso, seis ministros caíram do governo federal devido a suspeitas de corrupção, morreram 50 mil pessoas vítimas da violência no último ano e o Estado avança dentro dos lares para ditar se um pai pode ou não castigar fisicamente os próprios filhos. Pelo visto, um tapa ou outro é permitido numa criança, mas nem pense em fazer o mesmo com um cachorro. Pode ser o seu último ato.

Atividade: Leia e reflita sobre o texto acima e destaque os trechos em que o autor se refere à ética humana, explicando sua seleção.

19.12.11

Sobre cachorro, enfermeira, você e a civilização humana em tempos de internet




por Matheus Pichonelli

Civilização e barbárie

17.12.2011 09:18

A era dos homo facers

Durante algum tempo, homens e animais dividiram os mesmo espaços e as mesmas angústias. Não existiam gôndolas de supermercado, mas, em compensação, não havia outras preocupações na vida a não ser “o que vou comer no almoço”, “o que devo caçar”, “como conseguir o alimento com menos tempo e menos esforço”.
Era o tempo da racionalidade. O corpo tinha fome e o instinto nos levava à caça, à pesca, à colheita de frutos. Homens e iguanas poderiam sentar numa mesma mesa de bar, se houvesse bar naquele tempo, para compartilhar as mesmas queixas sobre um dia árduo. “Rapaz, deixei aquele mosquito escapar, mas foi por pouco. Tive que me contentar com um caqui podre que já estava no cão. Meu filho ficou puto porque não aguenta mais comer caqui”.

O homo facer: de dia compartilha bons sentimentos, à noite, pede sangue em nome de justiça
Ambos eram caça, ambos eram caçadores (a onça corria mais, mas os dois podiam se esconder na árvore).
E assim não caminhava a humanidade até o dia em que o sujeito de barba, ereto, observou um osso jogado no chão e percebeu que podia fazer daquele instrumento uma arma. Foi quando resolveu domesticar os animais para a sua alimentação e companhia. De um lado, atendia aos apelos do estômago, que teimava em sentir fome; de outro, atendia ao apelo da alma, para que desse um jeito na solidão.
Deste último grupo não havia melhor representante que os cães, que eram mais leais que o vizinho barbudo da casa ao lado. Eram tão dóceis quanto os elefantes e menos pegajosos do que as iguanas; só eles tinham porte para cuidar do nosso quintal e vigiar nossas posses sem estragos além dos inevitáveis. Criou-se o conceito de amizade.
Passa a fita e o sujeito barbudo abandona o osso e passa a fabricar armas. Fabrica também casas, indústrias, estradas, dutos, aviões e até lâminas de barbear. Fabrica também noções de justiça e regras de convivência. Quando viu, o homem já não era o lobo do homem, mas um ser atento a um novo jogo de sobrevivência. Permanecia falso como um camaleão, mas ciente de que um passo errado o colocaria em problemas com o delegado, com o juiz e até mesmo com o advogado, que viu naquilo tudo um negócio mais rentável do que vender ossos a prestação.
Era o tempo da evolução. Enquanto isso as iguanas e os cães seguiam lá: leais, mas à espera de que alguém os alimentasse.
Fato é que, tanto tempo depois, o ser humano já aprendeu a lidar com quase tudo. Já foi pra Lua, começou e encerrou muitas guerras, construiu a ponte estaiada sobre a marginal, botou muito vírus e muita bactéria para correr. Só não aprendeu a lidar com o elemento humano que definitivamente o diferencia do animal que domestica. Porque o animal, quando tem fome, come; quando tem sono, dorme; mas o ser humano, desde que o mundo é mundo, tem mania de complicar tudo. Por isso, toma remédios para emagrecer quando deve comer, e bebe energético ou café com guaraná quando precisa dormir.
É o ser humano que, movido a paixões, mata pai, mãe, tio ou irmão quando é contrariado. Só ele possui propriedades ainda inexistentes no mundo mineral e animal, como o ciúme, a ingratidão, a raiva, a vingança, a indignação. Por isso gasta-se tanto tempo para entender, em vão, atitudes impensadas (ou pensadas, mas fora do script do que se considera normal), como jogar a filha pela janela do apartamento ou invadir um haras para matar a tiros a amante.

O cão, que assiste de camarote à involução humana
Anos de evolução, e revoluções (da industrial à tecnológica) e páginas impressas de vã filosofia não bastaram para eliminar as barbáries do período primitivo. As barbáries, como os animais, foram apenas domesticadas. Estão sob eterna vigilância de um conjunto de regras e noções sobre ação e reação – que impedem, ou deveriam impedir, que irmãos matem irmãos impunemente. Mesmo assim, não impedem.
E quando não impedem, quando voltamos a nos comportar como animais, tentamos entender e racionalizar o que aconteceu. Quando isso é impossível, a coisa trava. Como uma máquina. Não conseguimos emitir resposta, a cabeça começa a esquentar, a soltar fumaça, como um computador à espera do Control + Alt + Del para começar tudo de novo.
Mergulhados numa era de competição feroz, e cansados de apertar os parafusos que nos garantem o orgulho de ser alguém na vida, entramos de cabeça num período confuso, de pura contradição. Lemos livros de auto-ajuda e falamos de bons sentimentos, mas damos cotoveladas homéricas em quem se aproximar do nosso parafuso e nossos quintais. O outro, o vizinho, o colega e até a esposa e o marido são sempre uma ameaça. Sempre podem produzir algo que não consta do script, da trairagem à traição. Porque são humanos, e não devolvem sorrisos quando fazemos cafuné neles. Alguns te engolem no dia seguinte, e ainda ameaçam colocar no YouTube aquele vídeo em que você aparece em posição constrangedora.
Vai ver é por isso que, para compensar nossa incapacidade de se desanimalizar (tenho a impressão de que essa palavra não existe), façamos tanto esforço para humanizar aqueles que ainda têm jeito na vida. No caso, os animais – aquele parceiro de caça de outrora e que hoje nos distrai e nos faz companhia na hora da novela, da sopa, e na hora em que precisamos quebrar o gelo da casa para não lembrar que somos sozinhos, vazios e incapazes de nos relacionar com alguém da nossa espécie.
É compreensível. Um animal bem cuidado jamais vai ser traiçoeiro. Vai, enquanto for vivo, cumprir tudo o que se espera dele. Jamais vai te contestar nem esperar seu sono para ligar para outros donos. Vai ser sempre leal, parceiro, dócil. Um ser, enfim, que devolve amor quando a ele dedicamos amor. Bem diferente dos filhos, para passam metade da vida ouvindo regras e a outra metade as descumprindo. Adão e Eva estão aí para mostrar que não existe paraíso que compense a delícia de ser oposição (com o perdão a Machado de Assis).
Com quase 30 anos nas costas, não me lembro até hoje de ter conhecido ser humano mais leal do que o Tupi, um pastor belga parceiro de dias e noites num dos períodos mais saudosos da minha infância. E não me lembro até hoje de ter sentido uma tristeza mais aguda do que o dia em que nos despedimos dele, num centro veterinário de Jaboticabal, onde meus pais foram informados de que não havia outra cura para seus tumores a não ser sacrificá-lo. Nunca me esqueci do Tupi, que uma hora dessas deve estar roçando as pernas de São Francisco de Assis.
Mesmo assim, acho que até ele se preocuparia se visse, do céu, a reação de bípedes conectados que, numa ação conjunta articulada pela internet, resolveram pedir o linchamento público de uma mulher filmada agredindo um cão até a morte. A cena é lamentável e a comoção, como diante de qualquer crime, parece inevitável.
O crime é, como qualquer crime, um ponto fora da curva das regras de convivência. Racionais que somos, não estamos preparados para absorver algo que não faça sentido (um ser humano maltratar até a morte um ser indefeso). E, como uma máquina de computador que não codifica a mensagem e passa a soltar fumaça, voltamos à pré-história. O tal Control + Alt + Del.
Em coro, juntamente até com o novelista da tevê, vamos às redes sociais com tridentes, escopetas, facas nos dentes para pedir justiça. Não a justiça resultante de anos de evolução, com processo, direito de defesa, ressocialização, espaço para o arrependimento, ação corretiva. Mas a justiça dos antepassados, que expurgavam os pontos fora da curva com apedrejamento e sangue.
Na era virtual, não basta cobrar justiça. É preciso expor a agressora, mostrar a cara, o número do celular, o endereço e o aviso: procura-se viva ou morta. Se amanhã ela for presa, processada e punida, não sentiremos a menor saciedade. Sangue se paga com sangue, e é assim desde que homens e animais engatinhavam juntos nos tempos áureos.
Nada mais representativo. Nos últimos anos, o Twitter e o Facebook permitiram que encontrássemos eco para nossas ideias mais pessoais, algumas inconfessáveis em períodos normais da história.
Fosse vivo, Benito Mussolini mediria sua popularidade pelo botão de “curtir”, e não seria pouca. O usuário da internet, sabendo que é uma legião, perdeu até a vergonha de relinchar em público. Ganhou uma plateia para as causas justas (como a defesa da dignidade dos animais) e para as suas causas duvidosas (como uma certa vontade, assumida ou não, de passar o trator na cracolândia). O meio é a mensagem e a mensagem é, no mínimo, estranha: por que vemos tanto espírito no pet e nenhum no marginal?
A verdade é que, juntos, o sentimento de revolta e o compartilhamento de simpatias pela barbárie deram outra dimensão à ideia de justiça. Em defesa dos animais, passamos a pedir a eliminação do ser humano, numa tentativa vã de extirpar do nosso convívio o elemento humano, aquele imprevisível, ingrato, incompreensível, que nos leva ao crime e à barbárie.
A indignação e a revolta nos ajudam a lembrar que somos humanos, e não máquinas indiferentes. Mas, como humanos, nos lembram que estamos sujeitos à mesma barbárie, seja como vítimas, seja como carrascos. Contra a covardia, respondemos com mais covardia. E assim a humanidade segue, no seu inevitável caminho de volta ao tempo em que ainda rastejava.

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Atividade: Leia e reflita sobre o texto acima e destaque os trechos em que o autor se refere à ética humana, explicando sua seleção.

12.8.11

Bebê em estado vegetativo reabre debate sobre eutanásia na Argentina


04/08/2011 13h46 - Atualizado em 04/08/2011 14h32


Camila é mantida viva desde que nasceu, há dois anos.
Os pais pedem que ela tenha direito a uma 'morte digna'.

Caso de bebê que é mantida viva desde o nascimento repercute na mídia argentina (Foto: Reprodução/Diario Uno)Caso de bebê que é mantida viva desde o
nascimento repercute na mídia argentina
(Foto: Reprodução/Diario Uno)
O caso de um bebê de 2 anos em estado vegetativo desde seu nascimento e cujos pais pedem que tenha direito a uma "morte digna" reabriu o debate sobre a falta de uma lei que regule a eutanásia na Argentina.
"Camila está em estado vegetativo desde que nasceu. Não chora, não pisca, não se movimenta. Todos afirmam e confirmam que o estado da menina é irreversível", declarou sua mãe, Selva Herbon, que foi citada nesta quinta por vários meios de comunicação locais.
Herbon, de 37 anos, tem outra filha, de 10 anos, e disse que sua família vive "um calvário" desde o nascimento de Camila, que respira através de aparelhos.
Ela disse que os comitês de bioética de entidades públicas e privadas apoiaram seu pedido de desligar os aparelhos de Camila e que também manifestaram seu apoio à reativação de projetos de lei sobre a eutanásia no Parlamento.
Camila nasceu em abril de 2009 em uma clínica da periferia de Buenos Aires. Como ela nasceu em estado vegetativo, os médicos tentaram reanimá-la "durante 20 minutos e ela foi conectada a um respirador artificial. Teve uma encefalopatia crônica não evolutiva por causa de falta de oxigênio no momento do parto", afirmou a mãe.
"Não lhe permitem uma morte digna", ressaltou Herbon, que afirmou que não dispõe de recursos para iniciar um requerimento judicial para que autorizem os médicos a praticar a eutanásia no caso de Camila.
Além disso, denunciou o caso ao Ministério da Justiça e Direitos Humanos, onde recebeu apoio do especialista em bioética, Juan Carlos Tealdi.
"Depois de um ano a medicina já não é obrigada a persistir com o tratamento, já que a situação do bebê é irreversível", disse Tealdi à "Radio Continental" de Buenos Aires.
Tealdi opinou que, na ausência de uma legislação sobre a eutanásia, um caso como o de Camila, que é "irreversível", deveria ser resolvido de comum acordo entre a família do paciente e os médicos, que "não são obrigados" a manter um tratamento que não surtirá efeito.
"Vou todos os sábados levar fraldas e roupa para ela", disse a mãe, que conversou com os dois legisladores que apresentaram projetos de lei para a regulação da eutanásia no país.
O senador Samuel Cabanchik, autor de um desses projetos, disse que pediu a seus colegas que avancem no debate dessa iniciativa, destinada a garantir o direito das pessoas a uma 'morte digna' quando todos os recursos médicos para sua recuperação estiverem acabado.

Ética, jornalismo e novas tecnologias


EXERCÍCIO: A partir dos trechos (com adaptações) abaixo faça uma pesquisa sobre o tema e reflita a respeito de como as tecnologias podem influenciar no surgimento de dilemas éticos, exemplificando com situações reais/simuladas.
"As rápidas mudanças trazidas pela era digital têm criado novos desafios éticos. No webinário, de duas horas, "Ética jornalística na era digital" o professor Edward Wasserman, Knight Chair em Ética Jornalística na Universidade Washington and Lee
Wasserman se concentrará nos novos desafios que os jornalistas encaram quando a revolução tecnológica os coloca em grande risco de violar regras de conflito de interesse. “Eu acho que conflito de interesse está surgindo como uma questão verdadeiramente jornalística na era digital porque mais e mais jornalistas estão praticando jornalismo como uma das numerosas coisas que fazem", disse o professor.
O professor de ética acha que quando os jornalistas se voltam para outras fontes de renda, o jornalismo praticado pode ser afetado por isso. "Há sempre uma tentação de ver o jornalismo como uma espécie de teste para outros empregos e quando você está fazendo isso, corre um risco enorme de fazer jornalismo pior ou que está em conflito".
"Outro problema é que as organizações de notícias estão tão ansiosas por fontes de receitas que não são talvez tão rígidas como eram, tradicionalmente, sobre resistir à influência de potenciais financiadores", explicou. Mais organizações estão patrocinando repórteres para cobrir determinados temas, o que "significa que você está fundamentalmente permitindo que alguém de fora dirija a maneira como você usa seus recursos de redação."
Junto com a questão do conflito de interesses, Wasserman discutirá como evitar danos e problemas de privacidade que se desenvolveram no mundo digital. Redações agora podem "empurrar histórias para publicação muito mais rapidamente do que aquelas do ambiente impresso com o qual estávamos acostumados", disse ele. A questão, então, é como você consegue conciliar a necessidade de ser competitivo e relevante "com a necessidade moral de tentar ser justo e minimizar qualquer possível dano".
Mas, mesmo que o uso da tecnologia tenha "reformulado" alguns dilemas éticos, Wasserman não pretende focar o webinário inteiro em ética relacionada aos meios digitais. "Vai ser uma bonita varredura de duas horas, imersão total na ética contemporânea das redações e temos de começar com o básico sobre a maneira como certas doutrinas éticas descrevem o certo e o errado", explicou.

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Além de suas funções de ensino na Universidade de Washington e Lee, Wasserman também escreve uma coluna de distribuição nacional na mídia para McClatchy-Tribune News Service. Ele é membro do conselho executivo da Associação pela Ética e Prática Profissional (APPE, na sigla em inglês) e atua no conselho editorial da revista Journal of Mass Media Ethics. No passado, ele foi editor executivo de negócios do The Miami Herald e CEO e editor-chefe da cadeia de jornais Daily Business Review. Ele também ministrou o curso online "Ética Jornalística para a Era Digital", do Centro Knight.

30.12.07

Servidor que levar resma de papel para casa deve ser demitido?

Seria um desvio de conduta? Seríamos a "sociedade do perdão" e da "vista grossa"?



Folha de S. Paulo - 30.07.07
Servidores punidos pela CGU chegam a 1,4 mil em 4 anos


Em 35% dos casos, servidor demitido pela União usou o cargo para obter vantagens
Dos 505 mil servidores federais, cerca de 23 mil respondem a processo administrativo por suspeita de praticar irregularidades


por ANDRÉA MICHAEL



Balanço feito pela CGU (Controladoria Geral da União) revela que nos quatro últimos anos foram demitidos 1.348 servidores públicos de carreira ou em cargo comissionado. O número representa um total de 4,1 demissões a cada cinco dias -em trajetória ascendente.

Se somadas as aposentadorias cassadas, chega a 1.431 o total de servidores punidos com as sanções que a CGU considera as mais drásticas.

Conforme o balanço, em 35% dos casos de demissões ou da cassação de aposentadorias, a irregularidade é o servidor usar do cargo para obter vantagem para si ou para um terceiro.

Pagamento de propina fica em último lugar, com 6,5% dos casos. Essa ocorrência, no entanto, aumentou de 4,20%, para 5,35% em 2005 e está em 8,54% neste ano.

Para o ministro-chefe da CGU, Jorge Hage, o incremento nos números se deve principalmente à criação, em 2005, de uma corregedoria para cada ministério. "Esse sistema já começou a mudar a cultura de impunidade na administração. Hoje, o Executivo não se limita a culpar o Judiciário pela impunidade. Ao contrário, temos aplicado as penalidades que a lei permite à própria administração, como as demissões e cassação de aposentadorias."

Desde sua criação, em 2003, a CGU busca ampliar os mecanismos de punição em caráter administrativo, que são, no mínimo, bem mais rápidos que os decorrentes de decisão judicial. A proporção média de tramitação é de um contra dez anos.

Segundo o procurador José Alfredo de Paula Silva, que integra a equipe da Procuradoria Geral da República, os processos penais por meio dos quais o servidor público que, por exemplo, frauda licitações em troca de pagamento de propina, acabam fulminados pela prescrição por conta dos sucessivos recursos em meio aos trâmites do Judiciário. "Em contrapartida, a administração pública, que observa o devido processo legal e a ampla defesa, é a previsão mais efetiva e célere de que dispomos nos nosso ordenamento", afirma José Alfredo.

Ministro e procurador concordam que o advogado de defesa do servidor é quem faz a diferença. "As leis processuais no Brasil admitem excrescências medievais. Um bom advogado não deixa um processo terminar em menos de vinte anos. E os corruptos podem pagar os melhores escritórios do país. Essa é a verdade. O resto é cinismo", diz Hage.

O número de demitidos inclui, por exemplo, o ex-servidor dos Correios Maurício Marinho, flagrado em 2005 recebendo R$ 3.000 em propina de um falso empresário.

Marinho foi alvo de processo administrativo. Demitido, ele trabalha em uma empresa de consultoria, em Brasília, e tenta voltar ao serviço público por meio de recurso à Justiça do Trabalho.

Outra demitida foi Maria da Penha Lino, indicada para um cargo em comissão como assessora do Ministério da Saúde. Em maio de 2006, ela foi presa sob a acusação de favorecer a máfia dos sanguessugas. Na ocasião, foi exonerada.

Depois de transcorrido processo administrativo, ela foi "destituída", termo para representar a demissão dos servidores que não integram os quadros. Ao mesmo tempo significa que eles estão proibidos de contratar com a administração pública por cinco anos.

Dos cerca de 505 mil servidores públicos federais, 23.253 mil (4,5%) respondem a processo administrativo disciplinar por suspeita de praticar irregularidades.

O presidente da Confederação dos Servidores Públicos Federais, Josemilton Costa, defende as sanções, desde que decorrentes do devido processo legal e sem viés político.

117 anos: TCU propõe cassar servidor por irregularidades pela primeira vez

Segundo sua assessoria, em 117 anos, o tribunal determinou só uma demissão, por abandono de emprego. Dois servidores do órgão são suspeitos de praticar irregularidades em benefício de empresas. Por esse motivo, em junho, o TCU concluiu propor a demissão de uma servidora e a cassação da aposentadoria de outro. A proposta depende de votação dos ministros, o que deve ocorrer até o fim de setembro.



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A partir do texto acima conceitue, segundo os valores, costumes e moral da atualidade o que é ética profissional, o que é desvio de conduta... Analisando o que mudou (ou não) nas últimas décadas (50 anos). Faça uma dissertação desenvolvendo o tema e não se esqueça de citar, ao final, as fontes consultadas. obrigada, Solange
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15.8.06

JORNALISMO & POBREZA


O preconceito social na notícia

Por Luciano Martins Costa
Em 11/7/2006

Que o jornalismo impresso se dirige quase integralmente para a classe média, é uma realidade que extrapola a simples percepção e se torna explícita em todas as ações de comunicação, dos editoriais às campanhas de marketing de jornais e revistas. Explica-se parcialmente por questões de mercado. Não se justifica, porém, o fato de a imprensa continuar tratando a chamada base da pirâmide social como uma fatia apartada da sociedade, quase um peso a ser arrastado.

A leitura cuidadosa dos principais jornais de influência nacional e das revistas semanais de informação revela que, quando se distancia do setor mediano da sociedade – formado, no Brasil, por cerca de 50 milhões de indivíduos – , a imprensa olha para cima – onde se deleitam os 5 milhões de ricos – com um misto de deslumbramento e indulgência. Quando olha para baixo, onde sobrevivem 123 milhões de cidadãos, vaza um distanciamento quase hostil.

Alguns jornais regionais, como O Povo, do Ceará, A Tarde, da Bahia, O Popular, de Goiânia e A Notícia, de Joinville, pelo que se pode depreender de suas versões eletrônicas, preservam características de suas comunidades e não apresentam um flagrante preconceito contra as populações menos favorecidas.

O Povo oferece um amplo espaço para problemas comunitários e não costuma vincular pobreza à delinqüência; A Tarde busca um perfil de jornal cosmopolita, com um desenho atualizado, mas não perde ocasião de ilustrar a "bahianidade", dando certo colorido a temas que têm pessoas ou comunidades carentes como protagonistas. A Notícia parece "clean" como a cidade de Joinville, com sua população muito homogênea e sua alta qualidade de vida, mas não esconde os problemas dos bairros pobres. O Popular tem um viés ecológico muito perceptível e aparenta um olhar mais para solidário quando a notícia vem das comunidades desfavorecidas.

Apartheid social

A chamada grande imprensa do Rio, São Paulo e Rio Grande do Sul, para sermos mais precisos, conversa diretamente com a classe média e tenta manter com ela uma relação de cumplicidade, que pode estar na origem desse viés sutil que denuncia certo desprezo pela maioria que se acotovela na base da pirâmide social.

Não são incomuns referências diretas entre favelamento e criminalidade e condenações apressadas de políticas públicas tidas como assistencialistas. Mas o fenômeno se revela em sua inteireza na aprovação implícita a ações típicas de "higienização social" disfarçadas de restauração urbana, praticadas frequentemente pelas autoridades municipais nas grandes cidades do Sul e Sudeste.

Basta uma leitura do noticiário sobre a "Cracolândia" do centro de São Paulo ou sobre batalhas entre quadrilhas dos morros cariocas para o cidadão mediano ser induzido a interpretações simplistas da complexidade social. Da mesma forma, o noticiário sobre as últimas ações do bando conhecido como PCC e a situação dos presídios deixam escapar eventualmente o viés do "apartheid" social. Os sentenciados e suas famílias são situados em caixas apartadas do nosso grande e diversificado armazém social.

Daí a vicejarem propostas controversas para a solução do "problema da pobreza" é um pulo. A pobreza passa a ser vista como uma questão isolada do universo da classe média leitora de jornais e revistas, o que certamente tende a agravar o distanciamento que naturalmente surge na faixa intermediária da população, que se sente mais vulnerável aos riscos urbanos e não conta com os recursos de defesa privada que têm os habitantes do chamado andar de cima.

A imprensa deveria ser o espaço da educação cívica. Seus praticantes deveriam buscar a vanguarda do conhecimento e desbaratar o emaranhado dos preconceitos, para que cada leitor pudesse encontrar em seu diário ou semanário o estímulo à solidariedade e compaixão – naquele sentido zen que define a capacidade de viver as alegrias e angústias do outro. E não o contrário – a permanente inculpação do outro por suas inseguranças e frustrações. Cada vez que um cidadão de classe média pontifica que "o Brasil é assim mesmo", ou que "bandido bom é bandido morto", grava-se um ponto negativo na distância entre a realidade e o ideal da imprensa.

SBT - Ratinho e anunciantes

Ratinho vira Chacrinha após Silvio Santos cobrar lucro



da Folha Online
29/07/2006


Intimado por Silvio Santos a dar lucro ao SBT, atraindo anunciantes, sem apelar para a baixaria, o apresentador Carlos Massa, o Ratinho, vai se transformar em Chacrinha - pelo menos na aparência.

Neste sábado (29), às 21h30, o "Programa do Ratinho" pretende fazer uma "homenagem ao mestre Abelardo Barbosa, mais conhecido como Chacrinha", nas palavras do SBT.


Vestindo roupas espalhafatosas, Chacrinha (1916-1988) reinou nas tardes de sábado da Globo, nos anos 80, desclassificava calouros acionando uma buzina de mão e popularizou bordões como "Teresinha", "Vocês querem bacalhau?" e "Quem não se comunica, se trumbica".


No programa deste sábado, Ratinho vai usar o tradicional chapéu cartola e os óculos de aros escuros, que eram marca registrada do Velho Guerreiro. Evidente que o programa não vai deixar de explorar a imagem das "chacretes", como eram chamadas as dançarinas batizadas com nomes exóticos e chamativos. No palco, vão estar, por exemplo, Suely Pingo de Ouro, Deise Cristal e Esther Bem-Me-Quer.


Rita Cadillac não foi esquecida. No quadro "Caranga da Madá", Madalena Bonfiglioli, que ficou famosa no extinto telejornal policial "Aqui Agora" (SBT), vai promover o encontro da chacrete e atriz pornô com o cantor Jerry Adriani no centro de São Paulo.


Mas Ratinho não aposta só na nostalgia para levantar o ibope. O programa promoverá mais uma etapa do concurso da garota do funk.


Silvio Santos já ordenou que Ratinho só continuará no ar em 2007 se voltar a dar lucro ao SBT. Essa é a última chance que Silvio Santos dá ao apresentador, que perdeu audiência nos últimos anos e deixou de ter programas diários. O contrato dele só vence em 2008.


O problema de Ratinho não é tanto a audiência (seu programa tem dado sete pontos), mas os custos. Só o apresentador ganha R$ 1,6 milhão por mês. O programa não atrai anunciantes de peso.


SBT decide retirar programas do Ratinho e Kajuru do ar


DANIEL CASTRO
Colunista da Folha de S.Paulo
O conselho executivo do SBT decidiu hoje à tarde retirar do ar o "Programa do Ratinho" e o "Jogo Duro", mesa-redonda apresentada por Jorge Kajuru nas manhãs de domingo. Extraoficialmente, os dois programas, que já não serão exibidos neste final de semana, estão deixando a grade de programação porque dão prejuízo ao SBT.
Carlos Massa, o Ratinho, que custa ao SBT mais de R$ 1,5 milhão por mês só de salário, terá "uma segunda chance". Em setembro, deverá estrear um novo programa que tentará ser comercialmente viável, ou seja, dar lucro. O que não será nada fácil, porque a imagem de Ratinho, ligada à baixaria na televisão, afasta grandes anunciantes.Outra novidade no SBT é a mudança de dia de exibição do humorístico "A Praça É Nossa". O programa passa das noites de sábado para as de quinta-feira.

Crítica TV - Novela "Páginas da Vida"



Crítica: "Páginas da Vida" se iguala ao Ratinho com vídeo do orgasmo



SÉRGIO RIPARDO
Editor de Ilustrada da Folha Online
17/07/2006 - 23h50



"Páginas da Vida" se igualou ao programa do Ratinho ao mostrar uma senhora de 68 anos, falando, com seu linguajar simples, sobre o primeiro orgasmo. Pior foi a retórica da Globo, admitindo que "houve excesso" e que submeterá os depoimentos a sua área de controle de qualidade. Ainda existe esse departamento?

A emissora vende a idéia de que a exibição do depoimento no horário nobre foi uma exceção, acidental, que fugiu ao seu "controle de qualidade". Só os ingênuos acreditam nesse discurso. Quem colocou no ar sabia muito bem o efeito desejado. Não seria surpresa nenhuma que se descobrisse que se recebe cachê para dar esse tipo de depoimento.



Lembre-se que a novela começou com ibope baixo. A preocupação da Globo com o texto de "Páginas da Vida" também é tardia. Na quinta-feira, já houve o caso do strip-tease de Ana Paula Arósio com sua personagem implorando ao marido ("Quero uma, duas, três vezes. Vem dormir dentro"). O ibope subiu. Isso é que interessa, na visão dos executivos da emissora.



As chamadas "Senhoras de Santana" podem espernear com a sexualidade desenfreada na TV. Para o Ministério da Justiça, a partir das 21h, lugar de criança é na cama. A novela é recomendada para maiores de 14 anos, grupo capaz de achar qualquer assunto, como sexo, na internet.


Ou seja, a Globo poderá apimentar a novela, sem risco de ser incomodada pelo governo. O telespectador mais conservador vai chiar, mas não deve parar de ver a novela. Afinal, é preciso patrulhar a trama. Vinga a idéia do "fale mal, mas fale de mim". A celeuma ajuda a levantar o ibope.


Para manter vivo o interesse por "Páginas da Vida", principalmente neste início, quando alguns ainda estão de ressaca com o fim de "Belíssima", a novela de Manoel Carlos precisa criar factóides, atraindo a atenção da mídia e, por conseqüência, dos telespectadores.



Primeiro, foi a cena do arrastão no Rio. Depois, o strip-tease da personagem Olívia. Agora, a idosa da "calcinha babada" por "gozar", sozinha, após ouvir uma canção de Roberto Carlos. Ninguém será demitido por isso, mas, bingo, quem não sintonizava a novela poderá sentir curiosidade.



Hoje, o pior da linguagem coloquial invade todos os canais, como SBT e Rede TV!. Até a Record, a chamada TV da Igreja Universal, apela no palavreado e nas imagens sensuais. Sob a desculpa de ser uma obra de realismo, "Páginas da Vida" vai continuar "aloprando" no português e na exploração do corpo.



Claro que soa preconceito social condenar uma "senhora do povo", como a do depoimento do orgasmo, por usar expressões de seu mundo para relatar uma experiência sexual. O público mais recatado odeia termos chulos. A elite até abre licenças "poéticas" para o baixo calão: se fosse filme de Quentin Tarantino e Pedro Almodóvar, tudo bem. Mas novela, não.



"Páginas da Vida" não é uma obra de Nelson Rodrigues (1912-1980), embora Manoel Carlos o imite com o estilo "a vida como ela é". No fim, a novela será julgada pela receita publicitária que gerou. É o que importa para a Globo. Cabe ao público decidir se quer fazer parte desse jogo.



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14.7.06

DOSSIÊ GUGU - Por uma comunicação mais democrática


30.09.2003

Ao proibir a veiculação do "Domingo Legal", a Justiça extrapolou suas funções?



SIM
Rubens Approbato Machado
Presidente nacional da Ordem dos Advogados do Brasil

A democracia elege como fundamento político e ético o direito ao livre acesso à informação. Esse direito ao livre acesso se eleva à categoria de direito fundamental, tendo a Constituição Federal firmado que a liberdade de expressão da atividade de comunicação independe de censura ou licença. A esse direito de livre acesso à informação têm sido impostos limites nas legislações modernas, particularmente na esfera da privacidade.

Diante da tendência crescente dos abusos que se cometem em nome da liberdade de expressão, urge repensar o sistema de gestão da informação e rever a participação do poder público como instrumento de controle democrático dos meios de comunicação. O papel do Estado em relação aos meios de comunicação eletrônicos deve ultrapassar seu raio de ação como poder concedente. Deve o Estado prover os meios para controlar de maneira mais atenta e rigorosa as concessões de autorização de emissoras de rádio e TV, os conteúdos de sua programação e propiciar a maior democratização dos meios, a fim de evitar sua alta concentração. Leia na íntegra...




Ao proibir a veiculação do "Domingo Legal", a Justiça extrapolou suas funções?

NÃO
Luiz Flávio Gomes
Doutor em direito penal

Seria uma enorme ilusão supor que programas televisivos marcadamente mercantilistas (que só pensam em lucros imediatos e audiência) nos transmitissem grandes lições de civismo e de moralidade intocável. Mas para tudo há limites, e cada qual deve assumir a responsabilidade pelo que faz.

Se na ditadura funciona a censura, na democracia não pode prosperar a farsa ou o crime. No programa do Gugu Liberato, ao se forjar uma entrevista bombástica (e perversamente ameaçadora) com dois supostos membros do PCC, ultrapassaram-se todas as fronteiras do razoável ou do tolerável. Leia na íntegra...

Domingo Ilegal III - Audiência e "picaretagem"

23.09.2003

DOMINGO ILEGAL
Audiência e "picaretagem" em alta

Felipe Lemos (*)

Sabe aquelas empresas ou ramos de atividade nos quais as pessoas depositam pouca ou praticamente nenhuma credibilidade? Movimentam até altas somas de dinheiro, porém eticamente ou moralmente estão destituídas do mínimo respeito ou consideração? Pois é. O fato é que a televisão brasileira dá, cada dia, mais um passo em direção a esta realidade, e ganha perigoso status de "picaretagem". Na verdade, não é um fato isolado aqui ou ali gerado por alguns programas noticiosos ou de entretenimento, mas um conjunto de trapalhadas, má intenção e ardor por lucratividade decorrente de índices elevados de audiência que estão retirando gradativamente a credibilidade da "telinha". Leia na íntegra...

Domingo Ilegal I - Manipulando informações

23/09/2003

DOMINGO ILEGAL
A quem interessa formar senso crítico?

Sylvia Moretzsohn (*)

A oportuna lembrança de recentes episódios que misturam ficção e realidade envolvendo a trama da (e o noticiário sobre a) novela das oito ajuda a redirecionar a discussão em torno do escândalo promovido pelo programa do Gugu. Mas parece que o professor Muniz Sodré esquece um de seus principais argumentos, ao afirmar que esse "claro sintoma histórico de resvalamento do real para o imaginário" é "vigiado apenas pela imprensa": justamente, no caso da novela, a imprensa – ou pelo menos a parte dela vinculada às Organizações Globo – é cúmplice desse processo.

Talvez faltasse destacar um detalhe nada insignificante: o de que esse "curto-circuito entre imaginário e real" seja condenado apenas quando assume ares agressivos, contra a "cultura da paz". Pois, nesses tempos em que o Estado oferece como imagem-símbolo de seu projeto de desarmamento a cena da destruição de armas de brinquedo, a mistura entre realidade e ficção é sempre saudada quando voltada para o "bem". Chega a ser uma expressão de civismo, com direito à integra do Hino Nacional fechando a cena.

E o grave efeito disso tudo – a debilitação da capacidade do senso comum de "fazer a distinção (...) entre o que efetivamente acontece e as simulações do acontecimento", isto é, o enfraquecimento da possibilidade de formação de um senso crítico – continua a produzir seus estragos mais profundos.

Mas a quem interessaria a formação de um senso crítico, não é mesmo?

Mídia e sistema penal
Se puxarmos um pouco pela memória, veremos que esse enorme iceberg já mostrou suas pontas inúmeras vezes, fornecendo pautas extensas para as capas dos cadernos autodenominados de "cultura", que se espantam com o festival de baixarias produzido na briga pelo Ibope. Depois tudo retorna ao seu leito "natural", isto é, o leito do mercado, que é onde se forjam esses escândalos.

Ocorre que os programas sensacionalistas não são autônomos, não existem apenas pela vontade de seus apresentadores e patrocinadores. Fazem parte do modo predominante de conduta da televisão comercial. Por isso, não creio que devamos "acompanhar mais de perto" apenas esses programas, mas a programação ela mesma, de modo abrangente. Talvez aí identifiquemos os vínculos que unem os programas de escândalo a outros – inclusive jornalísticos – aparentemente inocentes e até elogiados como porta-vozes dos direitos do cidadão.

É importante lembrar também que, no campo da comunicação, existem vários estudos a respeito de programas policiais e das relações mais gerais entre mídia e sistema penal, que podem fornecer argumentos importantes para esse necessário acompanhamento.


(*) Jornalista e professora de Jornalismo da Universidade Federal Fluminense