Mostrando postagens com marcador audiência. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador audiência. Mostrar todas as postagens

22.10.08

O caso Eloá: honra e desonra na balança, de quem?

Feminicídio ao vivo: o que nos clama Eloá


por Maria Dolores de Brito Mota e Maria da Penha Maia Fernandes *



Adital - Tudo o que o Brasil acompanhou com pesar no drama de Eloá, em suas cem horas de suplício em cadeia nacional, não pode ser visto apenas como resultado de um ato desesperado de um rapaz desequilibrado por causa de uma intensa ou incontrolada paixão. É uma expressão perversa de um tipo de dominação masculina ainda fortemente cravada na cultura brasileira.


No Brasil, foram os movimentos feministas que iniciaram nos anos de 1970, as denúncias, mobilização e enfrentamento da violência de gênero contra as mulheres que se materializava nos crimes cometidos por homens contra suas parceiras amorosas. Naquele período ainda estava em vigor o instituto da defesa da honra, e desenvolveram-se ações de movimentos feministas e democráticos pela punição aos assassinos de mulheres.


A alegação da defesa da honra era então justificativa para muitos crimes contra mulheres, mas no contexto de reorganização social para a conquista da democracia no país e do surgimento de movimentos feministas, este tema vai emergir como questão pública, política, a ser enfrentada pela sociedade por ferir a cidadania e os direitos humanos das mulheres.


O assassinato de Ângela Diniz, em dezembro de 1976, por seu namorado Doca Street, foi o acontecimento desencadeador de uma reação generalizada contra a absolvição do criminoso em primeira instância, sob alegação de que o crime foi uma reação pela defesa "honra". Na verdade, as circunstâncias mostravam um crime bárbaro motivado pela determinação da vítima em acabar com o relacionamento amoroso, e a inconformidade do assassino com este fim. Essa decisão da justiça revoltou parcelas significativas da sociedade cuja pressão levou a um novo julgamento em 1979 que condenou o assassino. Outro crime emblemático foi o assassinato de Eliane de Grammont pelo seu ex-marido Lindomar Castilho em março de 1981. Crimes que motivaram a campanha "quem ama não mata".


Agora, após três décadas, o Brasil assistiu ao vivo, testemunhando, o assassinato de uma adolescente de 15 anos por um ex-namorado inconformado com o fim do relacionamento. Um relacionamento que ele mesmo tomou a iniciativa de acabar por ciúmes, e que Eloá não quis reatar. O assassino, durante 100 horas manteve Eloá e uma amiga em cárcere privado, bateu na vitima, acusou, expôs, coagiu e por fim martirizou o seu corpo com um tiro na virilha, local de representação da identidade sexual, e na cabeça, local de representação da identidade individual.


Um crime em que não apenas a vida de um corpo foi assassinada, mas o significado que carrega - o feminino. Um crime do patriarcado que se sustenta no controle do corpo, da vontade e da capacidade punitiva sobre as mulheres pelos homens. O feminicídio é um crime de ódio, realizado sempre com crueldade, como o "extremo de um continuum de terror anti-feminino", incluindo várias formas de violência como sofreu Eloá, xingamentos, desconfiança, acusações, agressões físicas, até alcançar o nível da morte pública.


O que o seu assassino quis mostrar a todas/os nós? Que como homem tinha o controle do corpo de Eloá e que como homem lhe era superior? Ao perceber Eloá como sujeito autônomo, sentiu-se traído, no que atribuía a ela como mulher (a submissão ao seu desejo), e no que atribuía a si como homem (o poder sobre ela - base de sua virilidade). Assim o feminicídio é um crime de poder, é um crime político. Juridicamente é um crime hediondo, triplamente qualificado: motivo fútil, sem condições de defesa da vítima, premeditado.


Se antes esses crimes aconteciam nas alcovas, nos silêncios das madrugadas, estão agora acontecendo em espaços públicos, shoppings, estabelecimentos comerciais, e agora na mídia. Para Laura Segato [1] é necessário retirar os crimes contra mulheres da classificação de homicídios, nomeando-os de feminicídio e demarcar frente aos meios de comunicação esse universo dos crimes do patriarcado. Esse é o caminho para os estudos e as ações de denúncia e de enfrentamento para as formas de violência de gênero contra as mulheres.


Muita coisa já se avançou no Brasil na direção da garantia dos direitos humanos das mulheres e da equidade de gênero, como a criação das Delegacias de Apoio às Mulheres - DEAMs, que hoje somam 339 no país, o surgimento de 71 casas abrigo, além de inúmeros núcleos e centros de apoio que prestam atendimento e orientação às mulheres vítimas, realizando trabalho de denúncia e conscientização social para o combate e prevenção dessa violência, além de um trabalho de apoio psicológico e resgate pessoal das vítimas. Também ocorreram mudanças no Código Penal como a retirada do termo "mulher honesta" e a adoção da pena de prisão para agressores de mulheres, em substituição às cestas básicas. A criação da Lei 11.340, a Lei Maria da Penha, para o enfrentamento da violência doméstica contra as mulheres.


Mas, ainda assim, as violências e o feminicídio continuam a acontecer. Vejamos o exemplo do Estado do Ceará: em 2007, 116 mulheres foram vítimas de assassinato no Ceará; em 2006, 135 casos foram registrados; em 2005, 118 mortes e em 2004, mais 105 casos [2]. As mulheres estão num caminho de construção de direitos e de autonomia, mas a instituição do patriarcado continua a persistir como forma de estruturação de sujeitos.


É preciso que toda a sociedade se mobilize para desmontar os valores e as práticas que sustentam essa dominação masculina, transformando mentalidades, desmontando as estruturas profundas que persistem no imaginário social apesar das mudanças que já praticamos na realidade cotidiana. O comandante da ação policial de resgate de Eloá declarou que não atirou no agressor por se tratar de "um jovem em crise amorosa", num reconhecimento ao seu sofrer. E o sofrer de Eloá? Por que não foi compreendida empaticamente a sua angústia e sua vontade (e direito) de ser livremente feliz?

____________________

Notas:

[1] SEGATO, Rita Laura. Que és um feminicídio. Notas para um debate emergente. Serie Antropologia, N. 401. Brasília: UNB, 2006.
[2] Dados disponíveis em: http://www.patriciagalvao.org.br/apc-aa-patriciagalvao/home/noticias.shtml?x=1076


* Ma. Dolores: Socióloga, professora da Universidade Federal do Ceará / Maria da Penha: Inspiradora do nome da Lei Federal 11340/2006. Colaboradora de Honra da Coordenadoria de Políticas para Mulheres da Prefeitura de Mulheres
____________________


Atividade:


Após leitura do texto faça uma coletânea de trechos publicados na imprensa que indiquem a "supremacia do homem sobre a mulher", ou em que a mulher seja subjulgada ainda que indiretamente seja pelo repórter, pela narrativa, por testemunhas etc.




____________________

23.3.08

O fim da televisão

Após ler, atenta e criticamente, o texto abaixo (retirado do blog "O fim da Várzea - blogs, internet, opinião e mau humor") faça sua análise a respeito do parágrafo abaixo negritado.



_________________________________

O fim da televisão

Assisto muito pouco à televisão, e geralmente apenas o trash. Cancelei a TV por assinatura, depois de anos assistindo a infinitas reprises (desconfio que eles mantêm um convênio com as locadoras de DVD, recebendo um por fora para exibir apenas lixo nos finais-de-semana).

Ontem à noite, em mais uma insônia típica de domingo, estava zapeando pela TV aberta e, entre sessões de exorcismo e comerciais de 30 minutos sobre aparelhos de ginástica que até trocar pneu trocam, acabei acompanhando uma parte do Big Brother, que me fez questionar até que ponto pode descer a falta de qualidade da programação.

Os "confinados" haviam ganhado um almoço patrocinado por uma marca de suco obscura e deliciavam-se com uma refeição digna de loja de conveniência, daquelas que você aquece por 1 minuto e sofre de indigestão por uma semana.

Gyselle, a moça que "deu certo" na França e no Brasil, não sabe nem segurar os talheres, o tal Marcão segura-os como se fossem ferramentas e mastiga como se tivesse passado a vida na selva.

Isso parece fútil, mas os modos à mesa dizem muito de uma pessoa. No caso em questão, só confirma o que já havia sido mostrado em outro dia, quando Pedro Bial pergunta se eles conheciam a resposta do enigma da Esfinge e todos demonstram total ignorância, tanto da resposta quanto da origem da pergunta.

Reality shows são sobre pessoas comuns, eu sei disso. Mas parece que não basta mais ser comum, tem que ser superficial e ignorante.

Segundo li em algum lugar, a Globo já pensa em mudar a fórmula, visivelmente esgotada, na próxima edição. Pensam em mesclar pessoas de diferentes faixas etárias, fugindo do formato loira(o) burra(o).

Mas fugirão do nivelamento cultural rasteiro?

É fácil dizer que o povo desse País é inculto e incapaz de apreciar algo mais sofisticado. Eu mesmo acredito nisso. Mas não seria hora de fazer algo para mudar esse cenário?


Alguém que só come miojo é incapaz de apreciar algo mais sofisticado? Talvez sim, mas é preciso oferecer opções variadas, ao longo do tempo, o gosto melhora.

Quem acompanhou o Jô Soares no início de seu talk show no SBT lembra que era um programa memorável. Pessoas com conteúdo passavam por lá e o humor era genuíno. Quando a platéia fazia "ahhhh" no final de uma entrevista, era merecido, e digno de nota.


A pasteurização da programação está se revelando um tiro no pé por parte das emissoras. Incentivar a favelização da audiência não me parece um negócio lucrativo. Você gostaria de anunciar seu produto para quem não pode comprá-lo?


A TV pode ser útil na "educação" de um povo. Instigar novas idéias pode gerar frutos, inclusive a curto prazo.

Ou, muito em breve, veremos pessoas comendo com as mãos e comunicando-se por mímica. Quem viver verá.

____________________

Fonte: http://www.ofimdavarzea.com/o-fim-da-televisao/

15.8.06

SBT - Ratinho e anunciantes

Ratinho vira Chacrinha após Silvio Santos cobrar lucro



da Folha Online
29/07/2006


Intimado por Silvio Santos a dar lucro ao SBT, atraindo anunciantes, sem apelar para a baixaria, o apresentador Carlos Massa, o Ratinho, vai se transformar em Chacrinha - pelo menos na aparência.

Neste sábado (29), às 21h30, o "Programa do Ratinho" pretende fazer uma "homenagem ao mestre Abelardo Barbosa, mais conhecido como Chacrinha", nas palavras do SBT.


Vestindo roupas espalhafatosas, Chacrinha (1916-1988) reinou nas tardes de sábado da Globo, nos anos 80, desclassificava calouros acionando uma buzina de mão e popularizou bordões como "Teresinha", "Vocês querem bacalhau?" e "Quem não se comunica, se trumbica".


No programa deste sábado, Ratinho vai usar o tradicional chapéu cartola e os óculos de aros escuros, que eram marca registrada do Velho Guerreiro. Evidente que o programa não vai deixar de explorar a imagem das "chacretes", como eram chamadas as dançarinas batizadas com nomes exóticos e chamativos. No palco, vão estar, por exemplo, Suely Pingo de Ouro, Deise Cristal e Esther Bem-Me-Quer.


Rita Cadillac não foi esquecida. No quadro "Caranga da Madá", Madalena Bonfiglioli, que ficou famosa no extinto telejornal policial "Aqui Agora" (SBT), vai promover o encontro da chacrete e atriz pornô com o cantor Jerry Adriani no centro de São Paulo.


Mas Ratinho não aposta só na nostalgia para levantar o ibope. O programa promoverá mais uma etapa do concurso da garota do funk.


Silvio Santos já ordenou que Ratinho só continuará no ar em 2007 se voltar a dar lucro ao SBT. Essa é a última chance que Silvio Santos dá ao apresentador, que perdeu audiência nos últimos anos e deixou de ter programas diários. O contrato dele só vence em 2008.


O problema de Ratinho não é tanto a audiência (seu programa tem dado sete pontos), mas os custos. Só o apresentador ganha R$ 1,6 milhão por mês. O programa não atrai anunciantes de peso.


SBT decide retirar programas do Ratinho e Kajuru do ar


DANIEL CASTRO
Colunista da Folha de S.Paulo
O conselho executivo do SBT decidiu hoje à tarde retirar do ar o "Programa do Ratinho" e o "Jogo Duro", mesa-redonda apresentada por Jorge Kajuru nas manhãs de domingo. Extraoficialmente, os dois programas, que já não serão exibidos neste final de semana, estão deixando a grade de programação porque dão prejuízo ao SBT.
Carlos Massa, o Ratinho, que custa ao SBT mais de R$ 1,5 milhão por mês só de salário, terá "uma segunda chance". Em setembro, deverá estrear um novo programa que tentará ser comercialmente viável, ou seja, dar lucro. O que não será nada fácil, porque a imagem de Ratinho, ligada à baixaria na televisão, afasta grandes anunciantes.Outra novidade no SBT é a mudança de dia de exibição do humorístico "A Praça É Nossa". O programa passa das noites de sábado para as de quinta-feira.

Crítica TV - Novela "Páginas da Vida"



Crítica: "Páginas da Vida" se iguala ao Ratinho com vídeo do orgasmo



SÉRGIO RIPARDO
Editor de Ilustrada da Folha Online
17/07/2006 - 23h50



"Páginas da Vida" se igualou ao programa do Ratinho ao mostrar uma senhora de 68 anos, falando, com seu linguajar simples, sobre o primeiro orgasmo. Pior foi a retórica da Globo, admitindo que "houve excesso" e que submeterá os depoimentos a sua área de controle de qualidade. Ainda existe esse departamento?

A emissora vende a idéia de que a exibição do depoimento no horário nobre foi uma exceção, acidental, que fugiu ao seu "controle de qualidade". Só os ingênuos acreditam nesse discurso. Quem colocou no ar sabia muito bem o efeito desejado. Não seria surpresa nenhuma que se descobrisse que se recebe cachê para dar esse tipo de depoimento.



Lembre-se que a novela começou com ibope baixo. A preocupação da Globo com o texto de "Páginas da Vida" também é tardia. Na quinta-feira, já houve o caso do strip-tease de Ana Paula Arósio com sua personagem implorando ao marido ("Quero uma, duas, três vezes. Vem dormir dentro"). O ibope subiu. Isso é que interessa, na visão dos executivos da emissora.



As chamadas "Senhoras de Santana" podem espernear com a sexualidade desenfreada na TV. Para o Ministério da Justiça, a partir das 21h, lugar de criança é na cama. A novela é recomendada para maiores de 14 anos, grupo capaz de achar qualquer assunto, como sexo, na internet.


Ou seja, a Globo poderá apimentar a novela, sem risco de ser incomodada pelo governo. O telespectador mais conservador vai chiar, mas não deve parar de ver a novela. Afinal, é preciso patrulhar a trama. Vinga a idéia do "fale mal, mas fale de mim". A celeuma ajuda a levantar o ibope.


Para manter vivo o interesse por "Páginas da Vida", principalmente neste início, quando alguns ainda estão de ressaca com o fim de "Belíssima", a novela de Manoel Carlos precisa criar factóides, atraindo a atenção da mídia e, por conseqüência, dos telespectadores.



Primeiro, foi a cena do arrastão no Rio. Depois, o strip-tease da personagem Olívia. Agora, a idosa da "calcinha babada" por "gozar", sozinha, após ouvir uma canção de Roberto Carlos. Ninguém será demitido por isso, mas, bingo, quem não sintonizava a novela poderá sentir curiosidade.



Hoje, o pior da linguagem coloquial invade todos os canais, como SBT e Rede TV!. Até a Record, a chamada TV da Igreja Universal, apela no palavreado e nas imagens sensuais. Sob a desculpa de ser uma obra de realismo, "Páginas da Vida" vai continuar "aloprando" no português e na exploração do corpo.



Claro que soa preconceito social condenar uma "senhora do povo", como a do depoimento do orgasmo, por usar expressões de seu mundo para relatar uma experiência sexual. O público mais recatado odeia termos chulos. A elite até abre licenças "poéticas" para o baixo calão: se fosse filme de Quentin Tarantino e Pedro Almodóvar, tudo bem. Mas novela, não.



"Páginas da Vida" não é uma obra de Nelson Rodrigues (1912-1980), embora Manoel Carlos o imite com o estilo "a vida como ela é". No fim, a novela será julgada pela receita publicitária que gerou. É o que importa para a Globo. Cabe ao público decidir se quer fazer parte desse jogo.



Leia mais
•· Globo admite que "Páginas da Vida" apela e promete controle
· Ministério recebe queixas, mas descarta punir "Páginas da Vida"
· Globo esquenta ibope de "Páginas da Vida" com nudez

14.7.06

Domingo Ilegal III - Audiência e "picaretagem"

23.09.2003

DOMINGO ILEGAL
Audiência e "picaretagem" em alta

Felipe Lemos (*)

Sabe aquelas empresas ou ramos de atividade nos quais as pessoas depositam pouca ou praticamente nenhuma credibilidade? Movimentam até altas somas de dinheiro, porém eticamente ou moralmente estão destituídas do mínimo respeito ou consideração? Pois é. O fato é que a televisão brasileira dá, cada dia, mais um passo em direção a esta realidade, e ganha perigoso status de "picaretagem". Na verdade, não é um fato isolado aqui ou ali gerado por alguns programas noticiosos ou de entretenimento, mas um conjunto de trapalhadas, má intenção e ardor por lucratividade decorrente de índices elevados de audiência que estão retirando gradativamente a credibilidade da "telinha". Leia na íntegra...

Domingo Ilegal II - Censura

23.09.2003
DOMINGO ILEGAL
Controle social, sim;censura, jamais

Deonísio da Silva

Era o dia 7 de setembro de 2003 e aquele era um domingo legal. O Brasil inteiro comemorava 181 anos de independência política. É verdade que a independência econômica e a reforma agrária estão demorando mais do que o esperado. Continuam dependentes do velho esquema das capitanias hereditárias, implantadas ainda no século 16. À semelhanças daquele antigo modo de repartir um país tão grande entre tão poucos, também as televisões operam no regime de concessão. Mas, alto lá! A parecença se esgota aí. As concessões num regime democrático não são imunes ao Parlamento e ao controle do Judiciário.

Ainda que grandes contingentes do povo brasileiro semelhem o célebre bovino do quadro, que não entende o que ali se passa, ninguém pode tascar o direito de celebrar o avanço já obtido para substitui-lo pelas lamentações do atraso, daquilo que ainda não se pôde alcançar, como a instrução pública estendida a todos. A força vem das conquistas, servindo de estímulo às lutas presentes e futuras. O pessimista pode ser visto também como aquele que perde antes de travar a luta.

Mas no programa apresentado por Gugu Liberato, em vez do "grito do Ipiranga", tivemos os gritos de falsos bandidos, encapuzados e armados diante das câmeras. Para quê? Falsos os bandidos, eram verdadeiras as ameaças? Questões mal formuladas levam a respostas equivocadas. Não, a batalha era por audiência na televisão, como se o rebaixamento fosse compulsório para elevar seus índices, e os telespectadores não tivessem nenhum aparelhamento intelectual que lhes permitisse inferir que ali havia dente de coelho. Leia na íntegra...

Domingo Ilegal I - Manipulando informações

23/09/2003

DOMINGO ILEGAL
A quem interessa formar senso crítico?

Sylvia Moretzsohn (*)

A oportuna lembrança de recentes episódios que misturam ficção e realidade envolvendo a trama da (e o noticiário sobre a) novela das oito ajuda a redirecionar a discussão em torno do escândalo promovido pelo programa do Gugu. Mas parece que o professor Muniz Sodré esquece um de seus principais argumentos, ao afirmar que esse "claro sintoma histórico de resvalamento do real para o imaginário" é "vigiado apenas pela imprensa": justamente, no caso da novela, a imprensa – ou pelo menos a parte dela vinculada às Organizações Globo – é cúmplice desse processo.

Talvez faltasse destacar um detalhe nada insignificante: o de que esse "curto-circuito entre imaginário e real" seja condenado apenas quando assume ares agressivos, contra a "cultura da paz". Pois, nesses tempos em que o Estado oferece como imagem-símbolo de seu projeto de desarmamento a cena da destruição de armas de brinquedo, a mistura entre realidade e ficção é sempre saudada quando voltada para o "bem". Chega a ser uma expressão de civismo, com direito à integra do Hino Nacional fechando a cena.

E o grave efeito disso tudo – a debilitação da capacidade do senso comum de "fazer a distinção (...) entre o que efetivamente acontece e as simulações do acontecimento", isto é, o enfraquecimento da possibilidade de formação de um senso crítico – continua a produzir seus estragos mais profundos.

Mas a quem interessaria a formação de um senso crítico, não é mesmo?

Mídia e sistema penal
Se puxarmos um pouco pela memória, veremos que esse enorme iceberg já mostrou suas pontas inúmeras vezes, fornecendo pautas extensas para as capas dos cadernos autodenominados de "cultura", que se espantam com o festival de baixarias produzido na briga pelo Ibope. Depois tudo retorna ao seu leito "natural", isto é, o leito do mercado, que é onde se forjam esses escândalos.

Ocorre que os programas sensacionalistas não são autônomos, não existem apenas pela vontade de seus apresentadores e patrocinadores. Fazem parte do modo predominante de conduta da televisão comercial. Por isso, não creio que devamos "acompanhar mais de perto" apenas esses programas, mas a programação ela mesma, de modo abrangente. Talvez aí identifiquemos os vínculos que unem os programas de escândalo a outros – inclusive jornalísticos – aparentemente inocentes e até elogiados como porta-vozes dos direitos do cidadão.

É importante lembrar também que, no campo da comunicação, existem vários estudos a respeito de programas policiais e das relações mais gerais entre mídia e sistema penal, que podem fornecer argumentos importantes para esse necessário acompanhamento.


(*) Jornalista e professora de Jornalismo da Universidade Federal Fluminense