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31.10.08

Super Nanny



Super Nanny te faz refletir como a mim? Independentemente de qual tenha sido a origem deste programa, a questão do educar é posta à prova. De pais e filhos. Melhor: de pais capitalizados e filhos capitalizados. Sim! A questão nunca gira em torno da falta de dinheiro, das condições escolares, de política, economia ou algo que o valha, mas na falta de tempo dos pais para com os filhos. Basicamente! O que resulta na falta de atenção. Basicamente! Até que chega a hora e a vez da indisciplina infantil. Basicamente! E não há dinheiro que dê conta, basicamente! É quando entra a figura da babá, super, com suas dicas valiosas:

- pai, brinque com seu filho.
- mãe, imponha limites.
- programem passeios.
- tenham paciência, mostrem caminhos.
- digam o que é certo e o que é errado.
- faça-os entender: a casa, a rua, a escola, o bairro, o mundo.

Mas está aí um sistema de um capital feito para questionar. Enquanto pais, mães e sociedade se anulam para produzir e consumir, crianças ficam à deriva. E o mercado foi esperto. Com pais e mães ausentes, as redes de proteção em janelas e sacadas passam a ser um bom negócio. O nicho cresce: tapa tomada, protetor de quina, trancas para portas e gavetas, protetor de fogão, babá eletrônica e companhia. É que crianças à deriva precisam mesmo de muita tecnologia: computadores e videogames para afastá-las dos perigos das ruas, celulares com GPS para a localização exata do rebento em caso de seqüestro.

Se o futebol quebrava vidraças em tempos idos, e era só confiscar a bola, hoje fica-se em casa. Resolvido o problema das vidraças, das janelas, das sacadas, das tomadas, das quinas das mesas, das portas, das gavetas, dos fogões, dos computadores, dos videogames, dos celulares, dos pais e das mães esquecidos dos filhos. De ensiná-los, de guiá-los, de educá-los física, moral e sociologicamente.

Mas até pra isso o capital deu conta: ligue pra Super Nanny, consuma Super Nanny. A parte boa é que no fundo do baú Mary Poppins da moçoila, os livros e a literatura infantil.
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Analisando o comentário da autora acerca das atitudes dos pais em relação aos filhos, nesta atualidade capitalista, qual você entende ser o ponto central do desencontro familiar: a sociedade capitalista em si ou uma desarmonia nas relações humanas?




Desenvolva seu argumento dando exemplos.


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22.10.08

O caso Eloá: honra e desonra na balança, de quem?

Feminicídio ao vivo: o que nos clama Eloá


por Maria Dolores de Brito Mota e Maria da Penha Maia Fernandes *



Adital - Tudo o que o Brasil acompanhou com pesar no drama de Eloá, em suas cem horas de suplício em cadeia nacional, não pode ser visto apenas como resultado de um ato desesperado de um rapaz desequilibrado por causa de uma intensa ou incontrolada paixão. É uma expressão perversa de um tipo de dominação masculina ainda fortemente cravada na cultura brasileira.


No Brasil, foram os movimentos feministas que iniciaram nos anos de 1970, as denúncias, mobilização e enfrentamento da violência de gênero contra as mulheres que se materializava nos crimes cometidos por homens contra suas parceiras amorosas. Naquele período ainda estava em vigor o instituto da defesa da honra, e desenvolveram-se ações de movimentos feministas e democráticos pela punição aos assassinos de mulheres.


A alegação da defesa da honra era então justificativa para muitos crimes contra mulheres, mas no contexto de reorganização social para a conquista da democracia no país e do surgimento de movimentos feministas, este tema vai emergir como questão pública, política, a ser enfrentada pela sociedade por ferir a cidadania e os direitos humanos das mulheres.


O assassinato de Ângela Diniz, em dezembro de 1976, por seu namorado Doca Street, foi o acontecimento desencadeador de uma reação generalizada contra a absolvição do criminoso em primeira instância, sob alegação de que o crime foi uma reação pela defesa "honra". Na verdade, as circunstâncias mostravam um crime bárbaro motivado pela determinação da vítima em acabar com o relacionamento amoroso, e a inconformidade do assassino com este fim. Essa decisão da justiça revoltou parcelas significativas da sociedade cuja pressão levou a um novo julgamento em 1979 que condenou o assassino. Outro crime emblemático foi o assassinato de Eliane de Grammont pelo seu ex-marido Lindomar Castilho em março de 1981. Crimes que motivaram a campanha "quem ama não mata".


Agora, após três décadas, o Brasil assistiu ao vivo, testemunhando, o assassinato de uma adolescente de 15 anos por um ex-namorado inconformado com o fim do relacionamento. Um relacionamento que ele mesmo tomou a iniciativa de acabar por ciúmes, e que Eloá não quis reatar. O assassino, durante 100 horas manteve Eloá e uma amiga em cárcere privado, bateu na vitima, acusou, expôs, coagiu e por fim martirizou o seu corpo com um tiro na virilha, local de representação da identidade sexual, e na cabeça, local de representação da identidade individual.


Um crime em que não apenas a vida de um corpo foi assassinada, mas o significado que carrega - o feminino. Um crime do patriarcado que se sustenta no controle do corpo, da vontade e da capacidade punitiva sobre as mulheres pelos homens. O feminicídio é um crime de ódio, realizado sempre com crueldade, como o "extremo de um continuum de terror anti-feminino", incluindo várias formas de violência como sofreu Eloá, xingamentos, desconfiança, acusações, agressões físicas, até alcançar o nível da morte pública.


O que o seu assassino quis mostrar a todas/os nós? Que como homem tinha o controle do corpo de Eloá e que como homem lhe era superior? Ao perceber Eloá como sujeito autônomo, sentiu-se traído, no que atribuía a ela como mulher (a submissão ao seu desejo), e no que atribuía a si como homem (o poder sobre ela - base de sua virilidade). Assim o feminicídio é um crime de poder, é um crime político. Juridicamente é um crime hediondo, triplamente qualificado: motivo fútil, sem condições de defesa da vítima, premeditado.


Se antes esses crimes aconteciam nas alcovas, nos silêncios das madrugadas, estão agora acontecendo em espaços públicos, shoppings, estabelecimentos comerciais, e agora na mídia. Para Laura Segato [1] é necessário retirar os crimes contra mulheres da classificação de homicídios, nomeando-os de feminicídio e demarcar frente aos meios de comunicação esse universo dos crimes do patriarcado. Esse é o caminho para os estudos e as ações de denúncia e de enfrentamento para as formas de violência de gênero contra as mulheres.


Muita coisa já se avançou no Brasil na direção da garantia dos direitos humanos das mulheres e da equidade de gênero, como a criação das Delegacias de Apoio às Mulheres - DEAMs, que hoje somam 339 no país, o surgimento de 71 casas abrigo, além de inúmeros núcleos e centros de apoio que prestam atendimento e orientação às mulheres vítimas, realizando trabalho de denúncia e conscientização social para o combate e prevenção dessa violência, além de um trabalho de apoio psicológico e resgate pessoal das vítimas. Também ocorreram mudanças no Código Penal como a retirada do termo "mulher honesta" e a adoção da pena de prisão para agressores de mulheres, em substituição às cestas básicas. A criação da Lei 11.340, a Lei Maria da Penha, para o enfrentamento da violência doméstica contra as mulheres.


Mas, ainda assim, as violências e o feminicídio continuam a acontecer. Vejamos o exemplo do Estado do Ceará: em 2007, 116 mulheres foram vítimas de assassinato no Ceará; em 2006, 135 casos foram registrados; em 2005, 118 mortes e em 2004, mais 105 casos [2]. As mulheres estão num caminho de construção de direitos e de autonomia, mas a instituição do patriarcado continua a persistir como forma de estruturação de sujeitos.


É preciso que toda a sociedade se mobilize para desmontar os valores e as práticas que sustentam essa dominação masculina, transformando mentalidades, desmontando as estruturas profundas que persistem no imaginário social apesar das mudanças que já praticamos na realidade cotidiana. O comandante da ação policial de resgate de Eloá declarou que não atirou no agressor por se tratar de "um jovem em crise amorosa", num reconhecimento ao seu sofrer. E o sofrer de Eloá? Por que não foi compreendida empaticamente a sua angústia e sua vontade (e direito) de ser livremente feliz?

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Notas:

[1] SEGATO, Rita Laura. Que és um feminicídio. Notas para um debate emergente. Serie Antropologia, N. 401. Brasília: UNB, 2006.
[2] Dados disponíveis em: http://www.patriciagalvao.org.br/apc-aa-patriciagalvao/home/noticias.shtml?x=1076


* Ma. Dolores: Socióloga, professora da Universidade Federal do Ceará / Maria da Penha: Inspiradora do nome da Lei Federal 11340/2006. Colaboradora de Honra da Coordenadoria de Políticas para Mulheres da Prefeitura de Mulheres
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Atividade:


Após leitura do texto faça uma coletânea de trechos publicados na imprensa que indiquem a "supremacia do homem sobre a mulher", ou em que a mulher seja subjulgada ainda que indiretamente seja pelo repórter, pela narrativa, por testemunhas etc.




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8.2.08

Notícias do carnaval








NOTÍCIA A: São Clemente é punida por desfilar com mulher nua


Da Redação

A escola de samba São Clemente recebeu punição de meio ponto na avaliação de seu desfile pela Liga das Escolas de Samba do Rio de Janeiro (Liesa) por desfilar com uma mulher nua dentre os seus integrantes. Com 387,5 pontos, a São Clemente foi a 12ª colocada no Carnaval carioca, e foi rebaixada para a divisão de acesso em 2009. A modelo Viviane Castro (foto), 25, foi à avenida usando um tapa-sexo de 4 cm, e precisou colar novamente o adereço durante o desfile. A comissão julgadora da Liesa comunicou a punição no início da apuração dos quesitos na tarde desta quarta-feira, 6, no Rio de Janeiro. A modelo foi um dos destaques de chão da escola que desfilou o enredo "O Clemente João 6º no Rio: A Redescoberta do Brasil...". Além do pequeno tapa-sexo, ela usava apenas adereços nas costas e na cabeça, e maquiagem por todo o corpo.
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30/01/2008 - 23h01
NOTÍCIA B : Justiça mantém distribuição da pílula do dia seguinte em PE
por FÁBIO GUIBU
da Agência Folha

O juiz da 7ª Vara da Fazenda Pública de Recife, José Viana Ulisses Filho, negou nesta quarta-feira o pedido de liminar contra a distribuição da pílula do dia seguinte durante o Carnaval feito pela Aduseps (Associação de Defesa dos Usuários de Seguros, Planos e Sistemas de Saúde), com o apoio da Arquidiocese de Olinda e Recife.


Na sua decisão, Ulisses Filho afirmou que "em nenhum momento" a associação comprovou que o medicamento é abortivo --um dos fundamentos para o pedido de liminar. Ao contrário, disse o juiz, a documentação apresentada "assevera que a droga a ser utilizada é cientificamente considerada contraceptiva, e não abortiva".

Ulisses Filho lembrou também que a pílula não será distribuída aleatoriamente no Carnaval, mas apenas para "mulheres vítimas de abusos sexuais ou de acidentes verificados no uso das camisinhas".

Na sentença, válida apenas para Recife, o juiz afirmou que as opiniões religiosas condenando os métodos anticoncepcionais sem respaldo científico são "irrelevantes". "A República Federativa do Brasil é um estado laico e não uma teocracia."

A pressão da Igreja, entretanto, continua. Hoje, em nota assinada pelo bispo auxiliar do Rio de Janeiro, dom Antônio Augusto Dias Duarte, a Comissão Episcopal Pastoral para a Vida e a Família da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil) afirmou que "o uso da pílula do dia seguinte é moralmente inaceitável".

Segundo a nota, a ingestão do medicamento "nas primeiras 72 horas após a concepção provoca, na verdade, um aborto químico, tão gravemente imoral quanto o aborto cirúrgico".


A entidade afirmou ainda que o arcebispo de Recife e Olinda, dom José Cardoso Sobrinho, "é movido por zelo pastoral e por fundamentadas motivações éticas" ao criticar a distribuição do anticoncepcional. "Sua iniciativa merece todo o nosso apoio."

A coordenadora-executiva da Aduseps, Renê Patriota, afirmou que recorrerá da decisão. Ela disse ainda que ingressará com ações semelhantes contra as prefeituras de Olinda e Paulista, que também distribuirão a pílula durante o Carnaval.

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31/01/2008 - 15h55
Notícia C: Justiça proíbe carro alegórico que faz alusão ao Holocausto no Rio


http://www1.folha.uol.com.br/folha/cotidiano/ult95u368623.shtml

A Justiça do Rio proibiu nesta quinta-feira a escola de samba Viradouro de desfilar com um carro alegórico que faz alusão ao Holocausto. O carro apresenta vários corpos empilhados em alusão aos campos de concentração durante a Segunda Guerra Mundial (1939-1945).

O pedido de proibição foi feito pela Fierj (Federação Israelita do Estado do Rio de Janeiro) durante o plantão judiciário (das 18h às 11h) e acatado pela juíza Juliana Kalichsztein. Em sua decisão, a juíza impõe multa de R$ 200 mil para a escola se o carro desfilar.

Segundo o advogado Ricardo Brajterman, da Fierj, a federação já havia tentado, em conversas anteriores, convencer a Viradouro a desistir da idéia ou colocar uma mensagem de advertência, como "Holocausto nunca mais" no carro. "Mas a escola silenciou", disse Brajterman.

"Por volta das 23h ficamos sabendo que o carro traria um destaque vestido de [Adolf] Hitler. Imagine Hitler sambando à frente dos judeus e poloneses e outras vítimas do Holocausto mortas", disse o advogado. "O Carnaval é uma festa sensual. Não é o espaço certo para a discussão desse tema".
A decisão da juíza também prevê multa de mais R$ 50 mil se algum membro da escola entrar na avenida vestido de Hitler.

O desfile da Viradouro, "É de arrepiar", estava previsto para levar à avenida oito carros, segundo a sinopse dos desfiles divulgada pela Liesa (Liga Independente das Escolas de Samba do Rio). Além do Holocausto, os carros trariam temas supostamente ligados ao arrepio, como o frio, o nascimento e o Kama Sutra --tema de um carro que viria antes do carro sobre a matança de judeus--, e baratas, que viria depois.

A reportagem entrou em contato com a Viradouro em cinco número de telefone diferentes, mas os recados não foram respondidos até a tarde de hoje.


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veja aqui Liminar da Juiza contra passistas vestidos de Hitler

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04/02/2008 - 05h30
Notícia D : Viradouro protesta e leva arrepios à Sapucaí durante desfile


da Folha Online

A Viradouro, última escola a desfilar na primeira noite do Grupo Especial do Rio, protestou contra a decisão da Justiça de barrar um dos carros alegóricos que fazia alusão ao Holocausto e provocou arrepios no público da Marquês de Sapucaí ao levar à avenida uma pista de ski de 9 metros de altura, abastecida por 26 toneladas de gelo trituradas momentos antes da exibição. Na pista, atletas da CBDN (Confederação Brasileira dos Desportos de Neve) se apresentaram com pranchas de snowboard.

Antes da Viradouro, desfilaram a São Clemente, a Porto da Pedra, a Salgueiro, a Portela e a Mangueira. Confira a cobertura completa do Carnaval na Folha Online.

Com o enredo "É de arrepiar", a segunda alegoria da Viradouro, a do arrepio do cabelo, remeteu ao castelo de Edward, personagem de "Edward, Mãos de Tesoura", produção assinada pelo diretor de cinema Tim Burton. Um imenso salão de beleza e personagens urbanos como punks também foram representados.

O terceiro setor abordou o arrepio da paixão --da amizade, passando pelo toque nas mãos, beijo na boca, paixões, até insinuações de sexo. Uma imensa cama representou o Kama Sutra (manual indiano de posições sexuais).

A alegoria referente ao nascimento contou com a escultura de um bebê gigante segurado pelos pés, de cabeça para baixo. A escola fez ainda uma ala com referência a obra Escafandro, de Leonardo da Vinci, referência à letra "Trenzinho Caipira", de Villa Lobos, e à obra O Espantalho, de Portinari.

Em outro setor, a escola retratou insetos repugnantes --como baratas e aranhas--, além de ratos e cobras. Personagens que ganharam as telas de cinema, como Fred Krueger, Chucky e o demônio do filme "O Exorcista", também foram lembrados pela Viradouro como criaturas que causaram arrepios.

Encerrando o desfile, a Viradouro fez Cartola pisar na Sapucaí. A escola trouxe ainda uma de suas mais conhecidas obras, "As Rosas Não Falam", na intenção de provocar o arrepio da saudade no público.


Repugnância



A Viradouro pretendia mostrar o arrepio da repugnância, mas teve de mudar a proposta por ordem judicial.

Inicialmente, dentro do contexto do enredo, falaria do Holocausto tendo a figura de Adolf Hitler à frente do carro. Em cima da alegoria estavam corpos sobrepostos e objetos que remetiam a um campo de extermínio de judeus.

Atendendo a um pedido da Fierj (Federação Israelita do Estado do Rio de Janeiro), a juíza Juliana Kalichsztein proibiu a escola a desfilar com o carro. Agora, mostrou uma alegoria adaptada, que abordou a liberdade de expressão.

O carro entrou no sambódromo com componentes vestidos de branco e amordaçados. Sobre eles, a figura de Tiradentes. O carro ainda tinha faixas. Uma dizia "Liberdade ainda que tardia", e outra "Não se constrói o futuro enterrando a história".

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1/2/2008 01:26:00

Notícia E : Choro pelo Holocausto


Viradouro muda alegoria que representaria extermínio dos judeus na Segunda Guerra e traria Hitler, devido à decisão judicial que proibiu o carro. Escola vai abordar liberdade de expressão


Rio - A Viradouro entrará na Avenida sem o polêmico carro do Holocausto. A decisão foi tomada depois que a Federação Israelita do Rio conseguiu liminar da Justiça impedindo a utilização da alegoria no desfile. A entidade, que tentava por meio do diálogo demover a escola da idéia de representar o extermínio dos judeus na Segunda Guerra, mudou de idéia depois que soube através de O DIA que o carro teria representação do ditador nazista Adolf Hitler como destaque, em cima da pilha de corpos nus e esqueléticos. A decisão levou o carnavalesco Paulo Barros às lágrimas.

O carro, que custou R$ 400 mil, foi desmontado ontem. No lugar da alegoria, outra fará uma crítica velada à decisão da Justiça, abordando o tema da execução do direito de expressão. “Não digo que foi uma censura, mas a nossa intenção foi cerceada, de certa forma”, afirmou o presidente da Viradouro, Marco Lira.

Ele não adianta como será o novo carro, mas informa que abordará limitações da expressão somente no Brasil. “O direito de expressão que nós vamos retratar vai ser focado diretamente no nosso povo”, resume. Lira sugere que a alegoria deve tratar de temas como violência, ditadura e escravidão.

O presidente da escola disse que não faria nenhum tipo de apelação para derrubar a liminar. A decisão da juíza Juliana Kalichsztein indica que “nenhuma ferramenta de culto ao ódio” deve ser usada. O advogado da federação, Ricardo Brajterman, alegou “vilipêndio do sentimento religioso” para barrar a alegoria. “A federação queria que o carro viesse com uma faixa: Holocausto nunca mais, mas eles não aceitaram”.

O presidente da federação, Sérgio Niskier, que já havia manifestado preocupação com o carro, como noticiou O DIA no dia 18, aplaudiu a decisão: “Colocar um homem fantasiado de Hitler no alto do carro seria abuso ainda maior”.

COMEÇAR DO ZERO

A 72 horas do Carnaval, a Viradouro terá de começar do zero um novo carro. Paulo Barros disse que amanhã a alegoria estará pronta. Se o setor do Holocausto não fosse substituído, a Viradouro teria sete carros. O mínimo exigido pela Liga Independente das Escolas de Samba é cinco.

O presidente da Liesa, Jorge Castanheira, diz que a substituição da alegoria não prejudica a escola. “Basta que a escola envie, antes do desfile, errata para encaminharmos aos julgadores”, explicou. Barros contou que pretendia levar um Hitler arrependido para a Avenida. “O Corintho, que desfilaria no carro representando Hitler, ia fazer uma interpretação de culpa”, disse, referindo-se ao empresário Corintho Rodrigues.

A Sapucaí já foi cenário de outras polêmicas. Em 1989, o Cristo mendigo do carnavalesco Joãosinho Trinta, do enredo ‘Ratos e Urubus, Larguem Minha Fantasia’, teve que ser coberto. Ele viveu situação parecida em 2004, na Grande Rio, quando retrataria posições sexuais do Kama Sutra.

Israel condenou a alegoria

O governo israelense, através de sua embaixada, também se posicionou de forma contrária à exibição de alegoria sobre Holocausto na Avenida. Segundo o primeiro-secretário, Rafael Singer, o tema não se restringe à comunidade judaica, mas à Humanidade, e o Carnaval não é data adequada para a reflexão. “Achamos importante o tema do Holocausto ser tocado em qualquer lugar, mas misturar com Carnaval é inadequado”, afirmou.

Singer defende a abordagem do Holocausto como forma de educar os mais jovens contra o risco do nazismo. “O Holocausto não é um crime contra os judeus, mas contra a Humanidade”.

O Centro Simon Wiesenthal, grupo internacional judaico de defesa dos direitos humanos, pronunciou-se contra a utilização do Holocausto no Carnaval do Rio. O temor da instituição era de que o desfile da escola profanasse a memória do Holocausto.

O grupo, representado por Sérgio Widder, chegou a enviar carta à Viradouro pedindo que a escola desistisse da idéia de usar a alegoria.

JORNAIS NOTICIAM A POLÊMICA

A polêmica do carro alegórico da Viradouro ganhou o noticiário de diversos jornais do mundo. Assim que a Justiça se pronunciou contra o carro, o diário ‘The Jerusalem Post’ estampou a notícia da liminar expedida pela juíza Juliana Kalichsztein em seu site. Ainda em Israel, o ‘Haaretz’ também divulgou a decisão. A notícia é acompanhada de uma grande foto da escultura dos corpos nus e esqueléticos que deveriam compor o carro.

A rede de TV americana CNN publicou igualmente em seu site o veto ao carro alegórico. A reportagem foi veiculada à tarde, antes de a escola se pronunciar oficialmente e a assessora de imprensa da Viradouro era citada negando a intenção de excluir a alegoria. “Nós não vimos a liminar”, afirmou.

“Não haverá nenhuma pilha de corpos despidos e mutilados, e nenhum Hitler dançando, no maior Carnaval do mundo”, diz matéria do ‘Herald Review’, de Illinois, nos EUA. A rede de TV britânica BBC também deu destaque para a reação da Federação Israelita depois que o grupo soube que representação de Adolf Hitler seria destaque em cima da alegoria.


5 MINUTOS: ‘ESTÁ MAIS PARA GLORIFICAÇÃO DO NAZISMO’

1— Como o senhor recebeu a notícia de que uma escola de samba do Rio iria levar para a Avenida imagens que faziam referência ao Holocausto?
— Com muita surpresa. Esse tipo de comportamento não é habitual. É muito estranho. Não conseguimos entender como seria possível manter o clima de festa com um carro cheio de corpos mutilados. Isso iria arruinar o Carnaval.

2— O carnavalesco da Viradouro, Paulo Barros, disse que o carro seria uma homenagem às vítimas da tragédia. O senhor concorda com tal ponto de vista?
— Essa atitude está mais para a glorificação do nazismo do que para homenagem às vítimas dele.

3— Na sua opinião, o uso dessas imagens e a polêmica criada em torno da alegoria poderiam comprometer o Carnaval da escola este ano?
— Com esse pensamento ofensivo à memória das vítimas e aos sobreviventes do Holocausto, o máximo que a Viradouro conseguiria era ganhar prêmio do presidente do Irã (Mahmoud Ahmadinejad, que afirmou que a tragédia não existiu).

4 —A pressão imposta sobre a escola e a determinação da Justiça não podem ser comparadas a uma censura prévia?
—Isso não é uma questão de censura, e sim de boa fé. Este assunto já tinha passado do limite.

5— A mudança imposta pela Justiça a pedido da Fierj pode gerar mal-estar para a comunidade judaica no Brasil?
— Não acredito nisso. Qualquer pessoa de boa consciência se sentiria ofendida durante o desfile se fossem mantidas aquelas imagens horríveis.

SERGIO WIDDER, representante do Centro Simon Wiesenthal na América Latina

Reportagens de Flávia Salme, Josie Jerônimo, Mahomed Saigg, Rafael Cavalcanti e Pedro Moraes

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1/2/2008 17:17:00
Notícia F:
Artigo: Luis Carlos Magalhães critica veto do carro do Holocausto


Colunista analisa polêmica com a Viradouro e diz: 'um pedaço do carnaval de 2008 foi embora'



Luis Carlos Magalhães
(Colunista do Dia na Folia)


Há mais ou menos vinte anos eu fazia um trabalho sobre o movimento negro e fui conversar com Nei Lopes. O mestre deu uma boa aparada em meus pensamentos e me emprestou alguns livros. Disse que os marxistas simplificavam a questão racial no contexto da luta de classes, numa simplificação da qual ele discordava.

Foi num botequim de Vila Isabel que ouvi dele que “... só nós negros é que sabemos que são coisas muito diferentes”.

Não sou negro e também não sou judeu.

Lembrando as palavras do “professor” aí em cima, sei que não sei a dor que o povo judeu sente quando o holocausto é falado ou mostrado, seja lá onde for. O sacrifício de seus pais, de seus avós, ou de seus próprios. A suprema humilhação, covardia e submetimento.

Da mesma forma ninguém de minha genealogia foi açoitado, seqüestrado, amarrado atravessando o Atlântico, vomitando em si próprio, defecando sobre si mesmo, vendo seus iguais sendo atirados doentes ao mar, em uma viagem interminavelmente longa.

Tenho uma idéia do que pode ter sido aquilo e do suplício da escravidão. Da dor do açoite.

Se a alegoria da Viradouro era um brado de repúdio, como afirma a escola em sua defesa, ou se era um “escárnio”, “um espetáculo abominável para os sobreviventes...”, como afirmam os israelitas, ou a “banalização da barbárie”, na expressão da juíza, nunca saberemos. São juízos de valor. Muitos julgarão de uma forma, muitos julgarão de outra, é só esperar o resultado das enquetes dos sites carnavalescos.


Se o holocausto dos índios brasileiros, dos negros, são equiparáveis ou não... outro juízo de valor. Mas foram, e são mostrados no carnaval. De minha parte lamento o veto.


E aí pergunto: terá havido censura?


Haveria se o veto partisse do poder público diretamente, ou da igreja ou até da Liesa. Não foi isto.

Alguém, ou um grupo, se sentiu atingido e republicanamente acionou o poder judiciário. Se a juíza errou ou não, é também juízo de valor, só que, aqui, dentro da lei processual.

Cabe à escola cassar a decisão.

Essa é uma questão menor. Em defesa de carnavalesco, quero dizer que há um número i-ni-ma-gi-ná-vel de jovens que não só nunca viu, nenhuma única vez, a cena do Holocausto, como não tem idéia da razão de toda essa polêmica. Insisto, é um número inimaginável de jovens. Muitos deles estariam na Sapucaí. A alegoria estaria prestando um grande serviço à causa da Humanidade.


De minha parte, repito, lamento, mas lamento muito mesmo, com todo respeito a todo mundo aí em cima.

A primeira vez que vi a cena do holocausto foi no extinto cine Art Palácio Tijuca, na primeira ou segunda vez que entrei em um cinema. Nunca vou esquecer aquele dia.
Considero a maior cena de horror de toda a história da humanidade. Ou porque é mesmo ou porque foi tão exaustivamente divulgada, diferentemente dos genocídios de populações negras da áfrica, seja pela fome seja pelo flagelo da AIDS.

Considero que a cena, ou o carro, não acrescentaria tanto ao repúdio já tão consagrado, nem significaria tanto em desrespeito aos familiares das vítimas.

Não consigo imaginar a cena carnavalizável, me assustei quando a vi pela primeira vez no barracão. Não conheço a dramatização com Hitler, e nem se isto pesou mais que o próprio carro.

Se representaria um marco inesquecível do carnaval ou um marco de desastre de concepção, de equívoco maior do carnaval, um de seus piores momentos, só poderíamos saber lá, na hora, no exato momento em que o carro passasse, já escrevi isto antes.

O carnavalesco assumiu o risco, por isso é o que é hoje no cenário da festa: seu maior expoente e seu maior alvo de polêmicas.

Veríamos então algo nunca visto. O carnaval seria ele próprio testado em sua nova instância, colocado numa posição sem precedentes, tal o sentido e o significado que a escola quis dar à alegoria, tal a dramaticidade e a dor que o tema evoca. A verdade, a única verdade, e não juízos de valor, se revelaria ali. O carnaval revelaria a verdade.

Acho que um pedaço do carnaval de 2008 foi embora, ficou lá naquela escuridão do Fórum, junto com aquela papelada toda.

* Luis Carlos Magalhães é pesquisador de carnaval

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1/2/2008 19:40:00

Notícia G : Viradouro: Confira a justificativa do carro alegórico que vai substituir a alegoria do Holocausto





Rio - O carnavalesco Paulo Barros apresentou, na noite desta quinta, a justificativa do carro que irá substituir o do Holocausto. O nome da alegoria é "A execução da liberdade". O texto será enviado à Liga Independente das escolas de samba, como adendo ao material já entregue aos jurados. Na foto, o secretário de Turismo, Rubem Medina, visita o barracão e vê o novo carro sendo confeccionado.

Confira a íntegra do texto:
"A Viradouro subverte a tristeza e desnuda o horror da intolerância. O cerceamento da liberdade de expressão é o terreno mais fértil para que proliferem a violência, o desrespeito, a brutalidade, o extermínio.

Nem os algozes, nem as vítimas da trágica história da humanidade têm o direito de ocultar os fatos, entorpecer a memória. A proibição sumária da expressão artística é o primeiro passo em direção ao precipício: queimar livros, censurar filmes, destruir alegorias. Por trás de toda arbitrariedade, se esconde a mediocridade, a impossibilidade de vencer a força das idéias, e o que resta é dizimá-las.

A "execução da liberdade" é a quinta alegoria da Escola e percorre a avenida para lembrar que o extermínio pode ser a conseqüência do preconceito, da intolerância, do desrespeito à diversidade. Inicialmente concebida para representar um dos maiores genocídios da humanidade, o holocausto, o carro foi impedido de desfilar por mandato judicial da Federação Israelita do Rio de Janeiro, no dia 31 de janeiro de 2008.

Algumas reações de organismos nacionais e internacionais deixam clara a incompreensão de que o desfile das escolas de samba é um poderoso instrumento de divulgação de idéias, de sensibilização de corações e mentes de todo o planeta.

O carnaval foi apontado como "espaço inapropriado, em seu ambiente festivo", "desfile com música, mulheres e homens semi desnudos dançando alegremente face a recordação das vítimas do Holocausto", "um espetáculo abominável para os sobreviventes e suas famílias". É claro que houve a compreensão das intenções da escola, ou seja, alertar contra o genocídio de milhares de seres humanos.

A alegoria enquanto escultura, se exposta em uma bienal de arte seria aceita. Na avenida, se torna inadequada. Outras formas de arte retratam o holocausto, como o cinema, o teatro e as artes plásticas. As salas de cinema e os salões dos museus são os espaços mais adequados para que o povo reflita sobre as barbaridades do homem?

Considerar "escárnio" desfilar como tema tão contundente na Marquês de Sapucaí é descredenciar uma das mais importantes manifestações culturais brasileiras. Palco de lutas pela liberdade, a Avenida mostrou, ao longo de anos de desfile, a opressão contra negros e índios, a resistência dos migrantes nordestinos contra a miséria, a saga de heróis que foram mártires nas batalhas pela democracia.

O holocausto atingiu não apenas aos judeus, marcando a vida de comunistas, homossexuais, ciganos, deficientes mentais e físicos, intelectuais que discordavam do regime de Hitler, homens, mulheres e crianças que morreram brutalmente, vítimas do nazi-fascismo. A execução do direito de liberdade e a intolerância para com a diversidade cultural, ideológica e religiosa assassinou negros, índios, alquimistas, visionários.

A quinta alegoria da Viradouro, passará na Sapucaí representando um protesto contra todo o tipo de extermínio da vida e da liberdade. Não se conta a verdadeira história do homem só com poesia e prazer. As cicatrizes da alma são a melhor forma de proteção contra novas feridas".

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Notícia H: 3/2/2008 01:03:00

Viradouro: Carro fará alusão à censura


Quinta alegoria da Viradouro deverá monopolizar as atenções do público no Sambódromo


Rio -
Na virada de hoje para amanhã, quando começar o desfile da Unidos do Viradouro, todas as atenções estarão voltadas para o quinto carro alegórico da escola de Niterói. Batizado de ‘A Execução do Direito de Expressão’, o novo carro substituirá aquele que faria referência ao Holocausto — o extermínio de 6 milhões de judeus pelos nazistas durante a Segunda Guerra Mundial — e que foi proibido de desfilar por uma liminar da juíza Juliana Kalichszteim a pedido da Federação Israelita do Rio de Janeiro (Fierj), após reportagem de O DIA.

Sexta-feira o secretário municipal de Turismo, Rubem Medina, visitou o barracão da Viradouro. Medina, que é judeu, disse que é a favor da liberdade de expressão, mas desaprovou a alegoria da escola: “Sou contra qualquer tipo de censura, mas o Holocausto não deve ser lembrado no Carnaval”. Se a Viradouro não cumprisse a determinação, pagaria multa de R$ 200 mil.

A idéia do carnavalesco Paulo Barros — expor os horrores dos campos de concentração em alegoria com corpos nus, esqueléticos e empilhados — logo suscitou protestos da comunidade judaica. O presidente da Fierj, Sérgio Niskier, chegou a dizer que temia que o carro causasse mal-estar na Avenida e tivesse repercussão negativa em todo o mundo ao banalizar as vítimas do nazismo. Por mais que o carnavalesco declarasse que o tema seria tratado de forma respeitosa, outros representantes judeus também demonstraram descontentamento. O carnavalesco da Grande Rio, Roberto Szaniecki, que é judeu polonês, foi um dos que afirmou não entender a mensagem idealizada pelo colega da Viradouro.

A polêmica envolvendo o carro da Viradouro cresceu ainda mais quando outra reportagem de O DIA informou que haveria um destaque representando Adolf Hitler.

Segundo a liminar da juíza, se algum componente desfilar fantasiado do ditador, a escola terá que desembolsar R$ 50 mil. O empresário Corintho Rodrigues, que interpretaria o líder nazista na alegoria, deverá interpretar outro personagem no carro sobre a censura.

Alegoria sobre Kama Sutra é polêmica

O enredo ‘É de arrepiar’, da Unidos da Viradouro, deve trazer pelo menos mais um carro alegório que promete causar rebuliço na Avenida. Trata-se do Kama Sutra, que retrata os milenares ensinamentos do livro indiano sobre posições sexuais.

Segundo a descrição feita na ficha técnica do enredo, a alegoria é uma ‘gigantesca cama que esconde casais fazendo amor’. Funcionários do barracão, por sua vez, explicam que o carro traz “mulheres sentadas no colo dos parceiros como se estivessem dançando o créu”.

O carro já causa preocupação em entidades ligadas à proteção dos jovens, como o Conselho Municipal da Criança e do Adolescente.

Esta não é a primeira vez que um carro alegório sobre Kama Sutra desfila no Sambódromo. Em 2004, o carnavalesco da Grande Rio, Joãosinho Trinta, se viu obrigado a cobrir seus carros por uma determinação da Justiça.

30.12.07

Servidor que levar resma de papel para casa deve ser demitido?

Seria um desvio de conduta? Seríamos a "sociedade do perdão" e da "vista grossa"?



Folha de S. Paulo - 30.07.07
Servidores punidos pela CGU chegam a 1,4 mil em 4 anos


Em 35% dos casos, servidor demitido pela União usou o cargo para obter vantagens
Dos 505 mil servidores federais, cerca de 23 mil respondem a processo administrativo por suspeita de praticar irregularidades


por ANDRÉA MICHAEL



Balanço feito pela CGU (Controladoria Geral da União) revela que nos quatro últimos anos foram demitidos 1.348 servidores públicos de carreira ou em cargo comissionado. O número representa um total de 4,1 demissões a cada cinco dias -em trajetória ascendente.

Se somadas as aposentadorias cassadas, chega a 1.431 o total de servidores punidos com as sanções que a CGU considera as mais drásticas.

Conforme o balanço, em 35% dos casos de demissões ou da cassação de aposentadorias, a irregularidade é o servidor usar do cargo para obter vantagem para si ou para um terceiro.

Pagamento de propina fica em último lugar, com 6,5% dos casos. Essa ocorrência, no entanto, aumentou de 4,20%, para 5,35% em 2005 e está em 8,54% neste ano.

Para o ministro-chefe da CGU, Jorge Hage, o incremento nos números se deve principalmente à criação, em 2005, de uma corregedoria para cada ministério. "Esse sistema já começou a mudar a cultura de impunidade na administração. Hoje, o Executivo não se limita a culpar o Judiciário pela impunidade. Ao contrário, temos aplicado as penalidades que a lei permite à própria administração, como as demissões e cassação de aposentadorias."

Desde sua criação, em 2003, a CGU busca ampliar os mecanismos de punição em caráter administrativo, que são, no mínimo, bem mais rápidos que os decorrentes de decisão judicial. A proporção média de tramitação é de um contra dez anos.

Segundo o procurador José Alfredo de Paula Silva, que integra a equipe da Procuradoria Geral da República, os processos penais por meio dos quais o servidor público que, por exemplo, frauda licitações em troca de pagamento de propina, acabam fulminados pela prescrição por conta dos sucessivos recursos em meio aos trâmites do Judiciário. "Em contrapartida, a administração pública, que observa o devido processo legal e a ampla defesa, é a previsão mais efetiva e célere de que dispomos nos nosso ordenamento", afirma José Alfredo.

Ministro e procurador concordam que o advogado de defesa do servidor é quem faz a diferença. "As leis processuais no Brasil admitem excrescências medievais. Um bom advogado não deixa um processo terminar em menos de vinte anos. E os corruptos podem pagar os melhores escritórios do país. Essa é a verdade. O resto é cinismo", diz Hage.

O número de demitidos inclui, por exemplo, o ex-servidor dos Correios Maurício Marinho, flagrado em 2005 recebendo R$ 3.000 em propina de um falso empresário.

Marinho foi alvo de processo administrativo. Demitido, ele trabalha em uma empresa de consultoria, em Brasília, e tenta voltar ao serviço público por meio de recurso à Justiça do Trabalho.

Outra demitida foi Maria da Penha Lino, indicada para um cargo em comissão como assessora do Ministério da Saúde. Em maio de 2006, ela foi presa sob a acusação de favorecer a máfia dos sanguessugas. Na ocasião, foi exonerada.

Depois de transcorrido processo administrativo, ela foi "destituída", termo para representar a demissão dos servidores que não integram os quadros. Ao mesmo tempo significa que eles estão proibidos de contratar com a administração pública por cinco anos.

Dos cerca de 505 mil servidores públicos federais, 23.253 mil (4,5%) respondem a processo administrativo disciplinar por suspeita de praticar irregularidades.

O presidente da Confederação dos Servidores Públicos Federais, Josemilton Costa, defende as sanções, desde que decorrentes do devido processo legal e sem viés político.

117 anos: TCU propõe cassar servidor por irregularidades pela primeira vez

Segundo sua assessoria, em 117 anos, o tribunal determinou só uma demissão, por abandono de emprego. Dois servidores do órgão são suspeitos de praticar irregularidades em benefício de empresas. Por esse motivo, em junho, o TCU concluiu propor a demissão de uma servidora e a cassação da aposentadoria de outro. A proposta depende de votação dos ministros, o que deve ocorrer até o fim de setembro.



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A partir do texto acima conceitue, segundo os valores, costumes e moral da atualidade o que é ética profissional, o que é desvio de conduta... Analisando o que mudou (ou não) nas últimas décadas (50 anos). Faça uma dissertação desenvolvendo o tema e não se esqueça de citar, ao final, as fontes consultadas. obrigada, Solange
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15.8.06

Crítica TV - Novela "Páginas da Vida"



Crítica: "Páginas da Vida" se iguala ao Ratinho com vídeo do orgasmo



SÉRGIO RIPARDO
Editor de Ilustrada da Folha Online
17/07/2006 - 23h50



"Páginas da Vida" se igualou ao programa do Ratinho ao mostrar uma senhora de 68 anos, falando, com seu linguajar simples, sobre o primeiro orgasmo. Pior foi a retórica da Globo, admitindo que "houve excesso" e que submeterá os depoimentos a sua área de controle de qualidade. Ainda existe esse departamento?

A emissora vende a idéia de que a exibição do depoimento no horário nobre foi uma exceção, acidental, que fugiu ao seu "controle de qualidade". Só os ingênuos acreditam nesse discurso. Quem colocou no ar sabia muito bem o efeito desejado. Não seria surpresa nenhuma que se descobrisse que se recebe cachê para dar esse tipo de depoimento.



Lembre-se que a novela começou com ibope baixo. A preocupação da Globo com o texto de "Páginas da Vida" também é tardia. Na quinta-feira, já houve o caso do strip-tease de Ana Paula Arósio com sua personagem implorando ao marido ("Quero uma, duas, três vezes. Vem dormir dentro"). O ibope subiu. Isso é que interessa, na visão dos executivos da emissora.



As chamadas "Senhoras de Santana" podem espernear com a sexualidade desenfreada na TV. Para o Ministério da Justiça, a partir das 21h, lugar de criança é na cama. A novela é recomendada para maiores de 14 anos, grupo capaz de achar qualquer assunto, como sexo, na internet.


Ou seja, a Globo poderá apimentar a novela, sem risco de ser incomodada pelo governo. O telespectador mais conservador vai chiar, mas não deve parar de ver a novela. Afinal, é preciso patrulhar a trama. Vinga a idéia do "fale mal, mas fale de mim". A celeuma ajuda a levantar o ibope.


Para manter vivo o interesse por "Páginas da Vida", principalmente neste início, quando alguns ainda estão de ressaca com o fim de "Belíssima", a novela de Manoel Carlos precisa criar factóides, atraindo a atenção da mídia e, por conseqüência, dos telespectadores.



Primeiro, foi a cena do arrastão no Rio. Depois, o strip-tease da personagem Olívia. Agora, a idosa da "calcinha babada" por "gozar", sozinha, após ouvir uma canção de Roberto Carlos. Ninguém será demitido por isso, mas, bingo, quem não sintonizava a novela poderá sentir curiosidade.



Hoje, o pior da linguagem coloquial invade todos os canais, como SBT e Rede TV!. Até a Record, a chamada TV da Igreja Universal, apela no palavreado e nas imagens sensuais. Sob a desculpa de ser uma obra de realismo, "Páginas da Vida" vai continuar "aloprando" no português e na exploração do corpo.



Claro que soa preconceito social condenar uma "senhora do povo", como a do depoimento do orgasmo, por usar expressões de seu mundo para relatar uma experiência sexual. O público mais recatado odeia termos chulos. A elite até abre licenças "poéticas" para o baixo calão: se fosse filme de Quentin Tarantino e Pedro Almodóvar, tudo bem. Mas novela, não.



"Páginas da Vida" não é uma obra de Nelson Rodrigues (1912-1980), embora Manoel Carlos o imite com o estilo "a vida como ela é". No fim, a novela será julgada pela receita publicitária que gerou. É o que importa para a Globo. Cabe ao público decidir se quer fazer parte desse jogo.



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