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20.12.11

Mais um sobre o caso de enfermeira e a sociedade brasileira perdida


A enfermeira histérica e a nação infantiloide

por Diogo Luz / revista Bula
O estado patriarcal deste início de século XXI transformou o homem moderno numa massa uniforme de insegurança. O isolamento predominante nas grandes metrópoles modificou o caráter social do ser humano, despertando uma carência afetiva que precisa ser alimentada no mingau ralo dos substitutivos emocionais. A internet e os animais de estimação acabaram assumindo o papel de companheiros matrimoniais. Não é de se espantar a onda de indignação que varreu a grande rede após a divulgação de imagens de uma enfermeira espancando até a morte um cachorro da raça Yorkshire, em Formosa, no Estado de Goiás, na sexta-feira, 16.
O filósofo Janer Cristaldo abordou a estranha relação entre homens e animais no livro “O Paraíso Sexual Democrata”, uma ácida análise da social democracia na Europa e especificamente na Suécia. Ele cita a legislação alemã como um exemplo de desvirtuação proporcionada pelo politicamente correto no estado de bem-estar social. “A lei dispõe que um cão pastor necessita de 12 m² para habitar, enquanto um imigrante necessita de apenas 8 m²”. Citando o zoólogo Desmond Morris, o livro toca no ponto central do drama infantiloide vivenciado pela população dos países desenvolvidos e em ascensão econômica: “Afeto todos têm a oferecer, o problema é recebê-lo. O cão aceita incondicionalmente toda ou qualquer manifestação afetiva, sadia ou neurótica, expressada em pontapés ou afagos. Daí seu status”.
A quebra dos laços sociais alçou os animais de estimação à categoria de senhores absolutos. Não se aprende mais lições de vida com iguais, mas com cachorros e gatos, como atestam best-sellers como “Marley & Eu” e a incontável soma de genéricos da mesma lavra que tomaram de assalto as prateleiras das livrarias nos últimos anos. Cães e gatos muitas vezes recebem uma fatia maior do orçamento familiar do que os próprios filhos, isso quando eles não são completamente substituídos pelos seres de cauda. Nessa cadeia alimentar de sentimentalismo, as imagens da violência contra o cachorro despertaram nos brasileiros um horror que não seria atingido caso a vítima compartilhasse a mesma sequência genética dos indignados. A violência da enfermeira não golpeou apenas um ser indefeso, ela também acertou em cheio o vazio afetivo de toda uma nação.
Na projeção coletiva, exposta principalmente por meio das redes sociais, a defesa automática dos valores pernetas, mas caros à população, impulsionou uma resposta violenta ao crime cometido pela mulher. A imensa maioria dos comentários no Facebook e Twitter não exigia apenas cadeia pela morte do animal, mas que a agressora sofresse a mesma violência da qual o bicho foi vítima, ou ainda a pena de morte e tortura. Não tardou para que um crime corriqueiro, como atesta o delegado titular da Delegacia de Proteção ao Meio Ambiente, Luziano Severino, terminasse como cavalo-de-batalha de políticos e assumisse uma parcela vasta do horário nobre.
A defesa da agressora, também por meio das redes sociais, evidencia o perfil de uma desequilibrada. Justificar uma agressão torpe diante de uma criança de colo pelas diatribes de um cachorro é passar um atestado de transtorno emocional — provável motivo da aquisição do animal, em primeiro lugar. Ainda que o crime tenha sido cometido com requintes de crueldade, ninguém espera que adultos saudáveis sugiram que a punição natural seja atirar a mulher para ser devorada por pitbulls raivosos e tampouco que as autoridades colaborem colocando mais lenha na fogueira ao divulgar detalhes do processo.
A imprensa é a responsável por informar o público de assuntos de interesse da massa. Os funcionários estatais devem zelar pela tramitação técnica do caso e também garantir a segurança física da investigada. Ainda que pessoalmente discorde em parte dos termos, o direito à vida vale tanto para Fernandinho Beira-Mar quanto para uma enfermeira neurótica, mesmo que eles não concedam igual benefício às suas vítimas. Isso é o que difere pessoas honestas de bandidos e a democracia do totalitarismo.
Todos os dias a população abdica cada vez mais das relações humanas por seus substitutos felpudos. Agora, estão dispostos a abrir mão da razão e da própria humanidade para fazer justiça pelos seus animais. Enquanto isso, seis ministros caíram do governo federal devido a suspeitas de corrupção, morreram 50 mil pessoas vítimas da violência no último ano e o Estado avança dentro dos lares para ditar se um pai pode ou não castigar fisicamente os próprios filhos. Pelo visto, um tapa ou outro é permitido numa criança, mas nem pense em fazer o mesmo com um cachorro. Pode ser o seu último ato.

Atividade: Leia e reflita sobre o texto acima e destaque os trechos em que o autor se refere à ética humana, explicando sua seleção.

19.12.11

Sobre cachorro, enfermeira, você e a civilização humana em tempos de internet




por Matheus Pichonelli

Civilização e barbárie

17.12.2011 09:18

A era dos homo facers

Durante algum tempo, homens e animais dividiram os mesmo espaços e as mesmas angústias. Não existiam gôndolas de supermercado, mas, em compensação, não havia outras preocupações na vida a não ser “o que vou comer no almoço”, “o que devo caçar”, “como conseguir o alimento com menos tempo e menos esforço”.
Era o tempo da racionalidade. O corpo tinha fome e o instinto nos levava à caça, à pesca, à colheita de frutos. Homens e iguanas poderiam sentar numa mesma mesa de bar, se houvesse bar naquele tempo, para compartilhar as mesmas queixas sobre um dia árduo. “Rapaz, deixei aquele mosquito escapar, mas foi por pouco. Tive que me contentar com um caqui podre que já estava no cão. Meu filho ficou puto porque não aguenta mais comer caqui”.

O homo facer: de dia compartilha bons sentimentos, à noite, pede sangue em nome de justiça
Ambos eram caça, ambos eram caçadores (a onça corria mais, mas os dois podiam se esconder na árvore).
E assim não caminhava a humanidade até o dia em que o sujeito de barba, ereto, observou um osso jogado no chão e percebeu que podia fazer daquele instrumento uma arma. Foi quando resolveu domesticar os animais para a sua alimentação e companhia. De um lado, atendia aos apelos do estômago, que teimava em sentir fome; de outro, atendia ao apelo da alma, para que desse um jeito na solidão.
Deste último grupo não havia melhor representante que os cães, que eram mais leais que o vizinho barbudo da casa ao lado. Eram tão dóceis quanto os elefantes e menos pegajosos do que as iguanas; só eles tinham porte para cuidar do nosso quintal e vigiar nossas posses sem estragos além dos inevitáveis. Criou-se o conceito de amizade.
Passa a fita e o sujeito barbudo abandona o osso e passa a fabricar armas. Fabrica também casas, indústrias, estradas, dutos, aviões e até lâminas de barbear. Fabrica também noções de justiça e regras de convivência. Quando viu, o homem já não era o lobo do homem, mas um ser atento a um novo jogo de sobrevivência. Permanecia falso como um camaleão, mas ciente de que um passo errado o colocaria em problemas com o delegado, com o juiz e até mesmo com o advogado, que viu naquilo tudo um negócio mais rentável do que vender ossos a prestação.
Era o tempo da evolução. Enquanto isso as iguanas e os cães seguiam lá: leais, mas à espera de que alguém os alimentasse.
Fato é que, tanto tempo depois, o ser humano já aprendeu a lidar com quase tudo. Já foi pra Lua, começou e encerrou muitas guerras, construiu a ponte estaiada sobre a marginal, botou muito vírus e muita bactéria para correr. Só não aprendeu a lidar com o elemento humano que definitivamente o diferencia do animal que domestica. Porque o animal, quando tem fome, come; quando tem sono, dorme; mas o ser humano, desde que o mundo é mundo, tem mania de complicar tudo. Por isso, toma remédios para emagrecer quando deve comer, e bebe energético ou café com guaraná quando precisa dormir.
É o ser humano que, movido a paixões, mata pai, mãe, tio ou irmão quando é contrariado. Só ele possui propriedades ainda inexistentes no mundo mineral e animal, como o ciúme, a ingratidão, a raiva, a vingança, a indignação. Por isso gasta-se tanto tempo para entender, em vão, atitudes impensadas (ou pensadas, mas fora do script do que se considera normal), como jogar a filha pela janela do apartamento ou invadir um haras para matar a tiros a amante.

O cão, que assiste de camarote à involução humana
Anos de evolução, e revoluções (da industrial à tecnológica) e páginas impressas de vã filosofia não bastaram para eliminar as barbáries do período primitivo. As barbáries, como os animais, foram apenas domesticadas. Estão sob eterna vigilância de um conjunto de regras e noções sobre ação e reação – que impedem, ou deveriam impedir, que irmãos matem irmãos impunemente. Mesmo assim, não impedem.
E quando não impedem, quando voltamos a nos comportar como animais, tentamos entender e racionalizar o que aconteceu. Quando isso é impossível, a coisa trava. Como uma máquina. Não conseguimos emitir resposta, a cabeça começa a esquentar, a soltar fumaça, como um computador à espera do Control + Alt + Del para começar tudo de novo.
Mergulhados numa era de competição feroz, e cansados de apertar os parafusos que nos garantem o orgulho de ser alguém na vida, entramos de cabeça num período confuso, de pura contradição. Lemos livros de auto-ajuda e falamos de bons sentimentos, mas damos cotoveladas homéricas em quem se aproximar do nosso parafuso e nossos quintais. O outro, o vizinho, o colega e até a esposa e o marido são sempre uma ameaça. Sempre podem produzir algo que não consta do script, da trairagem à traição. Porque são humanos, e não devolvem sorrisos quando fazemos cafuné neles. Alguns te engolem no dia seguinte, e ainda ameaçam colocar no YouTube aquele vídeo em que você aparece em posição constrangedora.
Vai ver é por isso que, para compensar nossa incapacidade de se desanimalizar (tenho a impressão de que essa palavra não existe), façamos tanto esforço para humanizar aqueles que ainda têm jeito na vida. No caso, os animais – aquele parceiro de caça de outrora e que hoje nos distrai e nos faz companhia na hora da novela, da sopa, e na hora em que precisamos quebrar o gelo da casa para não lembrar que somos sozinhos, vazios e incapazes de nos relacionar com alguém da nossa espécie.
É compreensível. Um animal bem cuidado jamais vai ser traiçoeiro. Vai, enquanto for vivo, cumprir tudo o que se espera dele. Jamais vai te contestar nem esperar seu sono para ligar para outros donos. Vai ser sempre leal, parceiro, dócil. Um ser, enfim, que devolve amor quando a ele dedicamos amor. Bem diferente dos filhos, para passam metade da vida ouvindo regras e a outra metade as descumprindo. Adão e Eva estão aí para mostrar que não existe paraíso que compense a delícia de ser oposição (com o perdão a Machado de Assis).
Com quase 30 anos nas costas, não me lembro até hoje de ter conhecido ser humano mais leal do que o Tupi, um pastor belga parceiro de dias e noites num dos períodos mais saudosos da minha infância. E não me lembro até hoje de ter sentido uma tristeza mais aguda do que o dia em que nos despedimos dele, num centro veterinário de Jaboticabal, onde meus pais foram informados de que não havia outra cura para seus tumores a não ser sacrificá-lo. Nunca me esqueci do Tupi, que uma hora dessas deve estar roçando as pernas de São Francisco de Assis.
Mesmo assim, acho que até ele se preocuparia se visse, do céu, a reação de bípedes conectados que, numa ação conjunta articulada pela internet, resolveram pedir o linchamento público de uma mulher filmada agredindo um cão até a morte. A cena é lamentável e a comoção, como diante de qualquer crime, parece inevitável.
O crime é, como qualquer crime, um ponto fora da curva das regras de convivência. Racionais que somos, não estamos preparados para absorver algo que não faça sentido (um ser humano maltratar até a morte um ser indefeso). E, como uma máquina de computador que não codifica a mensagem e passa a soltar fumaça, voltamos à pré-história. O tal Control + Alt + Del.
Em coro, juntamente até com o novelista da tevê, vamos às redes sociais com tridentes, escopetas, facas nos dentes para pedir justiça. Não a justiça resultante de anos de evolução, com processo, direito de defesa, ressocialização, espaço para o arrependimento, ação corretiva. Mas a justiça dos antepassados, que expurgavam os pontos fora da curva com apedrejamento e sangue.
Na era virtual, não basta cobrar justiça. É preciso expor a agressora, mostrar a cara, o número do celular, o endereço e o aviso: procura-se viva ou morta. Se amanhã ela for presa, processada e punida, não sentiremos a menor saciedade. Sangue se paga com sangue, e é assim desde que homens e animais engatinhavam juntos nos tempos áureos.
Nada mais representativo. Nos últimos anos, o Twitter e o Facebook permitiram que encontrássemos eco para nossas ideias mais pessoais, algumas inconfessáveis em períodos normais da história.
Fosse vivo, Benito Mussolini mediria sua popularidade pelo botão de “curtir”, e não seria pouca. O usuário da internet, sabendo que é uma legião, perdeu até a vergonha de relinchar em público. Ganhou uma plateia para as causas justas (como a defesa da dignidade dos animais) e para as suas causas duvidosas (como uma certa vontade, assumida ou não, de passar o trator na cracolândia). O meio é a mensagem e a mensagem é, no mínimo, estranha: por que vemos tanto espírito no pet e nenhum no marginal?
A verdade é que, juntos, o sentimento de revolta e o compartilhamento de simpatias pela barbárie deram outra dimensão à ideia de justiça. Em defesa dos animais, passamos a pedir a eliminação do ser humano, numa tentativa vã de extirpar do nosso convívio o elemento humano, aquele imprevisível, ingrato, incompreensível, que nos leva ao crime e à barbárie.
A indignação e a revolta nos ajudam a lembrar que somos humanos, e não máquinas indiferentes. Mas, como humanos, nos lembram que estamos sujeitos à mesma barbárie, seja como vítimas, seja como carrascos. Contra a covardia, respondemos com mais covardia. E assim a humanidade segue, no seu inevitável caminho de volta ao tempo em que ainda rastejava.

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Atividade: Leia e reflita sobre o texto acima e destaque os trechos em que o autor se refere à ética humana, explicando sua seleção.

12.10.11

Por que a civilização não há de entrar em colapso




(texto atribuído a ALBERT EINSTEIN*)


    O otimista afirma a vida, o pessimista a nega. O pessimista, com toda a sua negação, agarra-se, como uma regra geral, ao doce hábito de viver. Cada homem, em um momento ou outro, acaba se fazendo a imortal pergunta de Hamlet: "Ser ou não ser?" E, se acaba. decidindo que ser é, de maneira geral, é preferível a não ser, é um otimista, ainda que goste de citar Schopenhauer ou o adágio bíblico de que tudo não passa de vaidade.


Eu sou um otimista.


Afirmo a vida porque, seja qual tenha sido o destino dos sóis e dos universos em dissolução, existe uma coisa que chamamos progresso e evolução no ciclo das espécies humanas, por mais breve que seja sua existência, medida em termos astronômicos.


Sou um otimista apesar da Depressão, da Fome, da Insatisfação e do Renascimento do Militarismo, os Quatro Cavaleiros do Novo Apocalipse que cavalgam na sangrenta trilha da Guerra Mundial.


Sou um otimista apesar da supressão em âmbito mundial, dos direitos humanos, que se seguiu à ambiciosa tentativa de tornar o mundo seguro para a democracia. O que caracteriza época em que vivemos é a batalha do indivíduo para se afirmar. Homem nenhum consegue encontrar-se com a sua própria alma se não atinge o equilíbrio entre o mesmo e a sociedade que o cerca.


Quando meditamos sobre a nossa vida e nossas esperanças temos, quase invariavelmente, de encarar a descoberta de que quase todas as nossas realizações e empreendimentos estão intimamente entrelaçados com a existência dos outros. Notamos até que ponto nos parecemos com outros animais que vivem em comunidades coletivas. Os alimentos que comemos são preparados e trazidos à nossa mesa por nossos companheiros. As próprias roupas que usamos são tecidas e costuradas por outros. Mãos alheias constroem os abrigos a que damos o nome de lar ou de local de trabalho.


Nossos conhecimentos e crenças, em sua maior parte, são uma herança. São-nos quase que inteiramente transmitidas pelos outros. Outros vêm criando, há muito tempo, os meios pelos quais a compreensão chega a nossos cérebros. Sem a fala, nossos cofres mentais ficariam totalmente vazios! Sem ela, o nosso horizonte intelectual não iria além do de um  elefante ou de um macaco. A linguagem cria a irmandade dos homens. É esse dom, a capacidade de transmitir para os outros idéias e emoções complexas, que diferencia o bípede humano de seus parentes zoológicos.


Inteiramente abandonado a si próprio, o homem ‚ mais indefeso do que os animais. Tente imaginar um bebê abandonado para crescer absolutamente sozinho, desde que nasce. O primitivismo abismal dessa criatura escapa à nossa imaginação.


o que significa tudo isso?


Isso demonstra a nossa dependência de nossos semelhantes.


Não importa a grandeza ou a distinção dos dons ou potencialidades de um homem, ele é distinto ou grandioso apenas em referência a seu grupo. Um indivíduo não é significativo enquanto indivíduo e sim como membro de uma família humana. A sociedade é a força que dirige os seus fins materiais e espirituais do nascimento à morte.


Isso nos dá  uma medida pela qual podemos avaliar os méritos de cada homem. Seu valor depende primariamente do grau em que as suas emoções, pensamentos e ações se dirigem para enriquecer a vida de seus semelhantes. Bem e mal não são termos absolutos: aplicados ao valor ou ao caráter de um homem, dependem de sua posição ou de sua atitude no relacionamento com o grupo. É como se os atributos sociais de um homem fossem os únicos fatores sobre os quais repousam a sua posição relativa na escala da humanidade.


No entanto, essa conclusão é errônea. Ela não é coerente com a história da humanidade. Pois se o indivíduo depende da sociedade,  a sociedade, por sua vez‚ é nutrida pelas riquezas de cada alma individual. É evidente que todos os bens materiais, espirituais e morais que recebemos da sociedade que nos cerca vieram a ela a partir de forças individuais, sempre acumulando, sempre crescendo, ao longo de inúmeras gerações. Toda civilização e toda cultura nasce das raízes do individualismo criativo.


Não foi a sociedade, mas um indivíduo quem primeiro tirou fogo de uma pedra. Alguns indivíduos foram os responsáveis pela idéia de retirar alimentos do solo, plantando-os. Outros indivíduos foram os primeiros a conceber a máquina a vapor ou o filamento da lâmpada que nos ilumina.


Só o indivíduo pode pensar e, pensando, criar novos valores para o mundo. Só o indivíduo pode estabelecer novos padrões morais que mostram o caminho para as gerações vindouras. Sem personalidades decisivas, pensando e criando de forma independente o progresso humano é inconcebível.


A saúde da da sociedade depende menos da integridade de cada indivíduo do que dos laços sociais que unem o indivíduo a seu grupo. Mas o indivíduo não pode crescer sem o apoio de uma comunidade cooperativa. As culturas greco-européia e americana floresceram a partir da semente da realização individual. O florescimento cultural da Renascença, em especial, tirou a sua força quase inteiramente do relativo isolamento dos indivíduos.


O que é que isso significa para nós?


Vamos dar uma olhada no tempo em que vivemos. Qual é a do indivíduo?


A população das  áreas onde o nosso tipo especial de civilização prevalece, cresceu enormemente. A população da Europa, sozinha, triplicou em um século. Na América, a taxa de crescimento foi ainda mais prodigiosas. Mas o número de lideres independentes, de criadores e pensadores decresceu na proporção inversa. Há poucos indivíduos, hoje, que se ergam acima da multidão. Os poucos que se destacam devem essa distinção principalmente a uma realização produtiva. No mundo que nos cerca, a organização tomou o lugar da liderança individual. Isso é particularmente verdade no domínio das realizações técnicas. É verdade, também, num grau espantoso, no domínio das ciências. 


A falta de grandes individualidades no domínio das artes mostra-se com dolorosa clareza. A pintura e a música, em especial, degeneraram. A política, também está falida. Não só não existem mais grandes líderes políticos, como também o cidadão individual sofreu um declínio quase universal em termos de confiabilidade e senso de justiça. E, no entanto, a confiabilidade espiritual e um agudo senso de justiça por parte dos indivíduos, são os dois pilares sobre os quais repousa a estrutura democrática. Sem eles, os sistemas parlamentares não funcionam. Porque o indivíduo perdeu essas duas virtudes cívicas primárias, a democracia e seus sistemas parlamentares estão funcionando mal. Porque o indivíduo perdeu essas duas virtudes cívicas primárias, a democracia e seus parlamentos estão vacilantes em muitos países. Por toda a parte erguem-se as ditaduras e elas são toleradas porque o senso de dignidade e de direitos individuais já não está mais vivo de forma suficientemente vibrante.


Às massas, por toda a parte, falta a capacidade de julgamento político independente. Pode-se levar o povo de qualquer país, no espaço de duas semanas, a um tal graus de ódio e histeria que seus membros individuais estão prontos para matar ou ser mortos, em armadilhas militares, por qualquer motivo, sem que se leve em conta o seu mérito especial. A propaganda cria o serviço militar compulsório ou a servidão militar compulsória. Na minha opinião, o sintoma mais vergonhoso da falta de dignidade pessoal de que a nosso mundo civilizado sofre hoje é a forma como ele se submete às pressões do serviço militar compulsório de qualquer tipo. Em vista desses fenômenos perturbadores não faltam profetas que proclamam o colapso iminente da civilização ocidental. Não me alinho com esses pessimistas. Tudo .indica o contrário. Acredito num futuro melhor e deixem que resuma rapidamente as razões que tenho para estar convencido disso.


A humanidade está sofrendo não porque tenha deixado de progredir, mas porque progrediu depressa demais.


Atribuo as manifestações atuais de desintegração ao fato de que o crescimento da indústria e do maquinário tornou mais aguda a batalha pela existência a um ponto tal que ela se torna um obstáculo ao livre desenvolvimento do indivíduo. Aos líderes em potencial faz falta o tempo livre de que precisam para crescer. O desenvolvimento das máquinas deveria ter produzido o efeito oposto. Deveria ter diminuído a exigência de que o indivíduo trabalhe mais para atender à demanda da comunidade. Mas o mundo não se adaptou a essas mudanças como resultado, o desemprego e a inquietação social espreitam por toda parte, num mundo instável. A humanidade está começando a se dar com de que uma de suas tarefas mais urgentes é a reorganização do trabalho.


Assim que tivermos realizado essa redistribuição, poderemos reajustar as nossas vidas garantindo a cada indivíduo segurança material e lazer. Reavivadas por um novo senso de segurança e de liberdade, as energias que agora estão sendo reprimidas serão liberadas nas almas dos indivíduos. Seremos uma vez mais capazes de desenvolver grandes personalidades, capazes de enriquecer a nossa vida cultural. Extraindo uma força nova das individualidades, a humanidade há de readquirir o seu equilíbrio espiritual e sua saúde espiritual. A própria intensidade de nossos distúrbios indica a determinação com que tanto indivíduo quanto o organismo social querem se ver livres desse sofrimento.


Os historiadores futuros hão de compreender a crise que se apossado mundo de hoje como um sintoma de uma doença social provocada apenas pelo ritmo rápido demais de nossa civilização. A humanidade, curando-se dessa doença infantil, há de conseguir ir para a frente e para cima na consecussão de seus objetivos.


*O físico alemão Albert Einstein, formulador da teoria da relatividade, escreveu este artigo em 1933 para a Liberty Magazine/HP Singer Features, três anos depois de sua transferência para ao Estados Unidos.


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Atividade: Grife os pontos que o autor estabelece uma relação ou proposição ética.



12.8.11

Ética, jornalismo e novas tecnologias


EXERCÍCIO: A partir dos trechos (com adaptações) abaixo faça uma pesquisa sobre o tema e reflita a respeito de como as tecnologias podem influenciar no surgimento de dilemas éticos, exemplificando com situações reais/simuladas.
"As rápidas mudanças trazidas pela era digital têm criado novos desafios éticos. No webinário, de duas horas, "Ética jornalística na era digital" o professor Edward Wasserman, Knight Chair em Ética Jornalística na Universidade Washington and Lee
Wasserman se concentrará nos novos desafios que os jornalistas encaram quando a revolução tecnológica os coloca em grande risco de violar regras de conflito de interesse. “Eu acho que conflito de interesse está surgindo como uma questão verdadeiramente jornalística na era digital porque mais e mais jornalistas estão praticando jornalismo como uma das numerosas coisas que fazem", disse o professor.
O professor de ética acha que quando os jornalistas se voltam para outras fontes de renda, o jornalismo praticado pode ser afetado por isso. "Há sempre uma tentação de ver o jornalismo como uma espécie de teste para outros empregos e quando você está fazendo isso, corre um risco enorme de fazer jornalismo pior ou que está em conflito".
"Outro problema é que as organizações de notícias estão tão ansiosas por fontes de receitas que não são talvez tão rígidas como eram, tradicionalmente, sobre resistir à influência de potenciais financiadores", explicou. Mais organizações estão patrocinando repórteres para cobrir determinados temas, o que "significa que você está fundamentalmente permitindo que alguém de fora dirija a maneira como você usa seus recursos de redação."
Junto com a questão do conflito de interesses, Wasserman discutirá como evitar danos e problemas de privacidade que se desenvolveram no mundo digital. Redações agora podem "empurrar histórias para publicação muito mais rapidamente do que aquelas do ambiente impresso com o qual estávamos acostumados", disse ele. A questão, então, é como você consegue conciliar a necessidade de ser competitivo e relevante "com a necessidade moral de tentar ser justo e minimizar qualquer possível dano".
Mas, mesmo que o uso da tecnologia tenha "reformulado" alguns dilemas éticos, Wasserman não pretende focar o webinário inteiro em ética relacionada aos meios digitais. "Vai ser uma bonita varredura de duas horas, imersão total na ética contemporânea das redações e temos de começar com o básico sobre a maneira como certas doutrinas éticas descrevem o certo e o errado", explicou.

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Além de suas funções de ensino na Universidade de Washington e Lee, Wasserman também escreve uma coluna de distribuição nacional na mídia para McClatchy-Tribune News Service. Ele é membro do conselho executivo da Associação pela Ética e Prática Profissional (APPE, na sigla em inglês) e atua no conselho editorial da revista Journal of Mass Media Ethics. No passado, ele foi editor executivo de negócios do The Miami Herald e CEO e editor-chefe da cadeia de jornais Daily Business Review. Ele também ministrou o curso online "Ética Jornalística para a Era Digital", do Centro Knight.

12.6.09

Criança, a alma do negócio (Brasil)

Faça uma resenha crítica sobre o documentário "Criança, a alma do negócio". Reflita ainda sobre a postura dos adultos apresentada no filme.
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Filmes e documentários - Criança, a alma do negócio (Brasil)

Por que meu filho sempre me pede um brinquedo novo? Por que minha filha quer mais uma boneca se ela já tem uma caixa cheia de bonecas? Por que meu filho acha que precisa de mais um tênis? Por que eu comprei maquiagem para minha filha se ela só tem cinco anos? Por que meu filho sofre tanto se ele não tem o último modelo de um celular? Por que eu não consigo dizer não? Ele pede, eu compro e mesmo assim meu filho sempre quer mai. De onde vem este desejo constante de consumo?

Este documentário reflete sobre estas questões e mostra como no Brasil a criança se tornou a alma do negócio para a publicidade. A indústria descobriu que é mais fácil convencer uma criança do que umn adulto, então, as crianças são bombardeadas por propagandas que estimulam o consumo e que falama diretamente com elas. O resultado disso é devastador: crianças que, aos cinco anos, já vão à escola totalmente maquiadas e deixaram de brincar de correr por causa de seus saltos altos; que sabem as marcas de todos os celulares mas não sabem o que é uma minhoca; que reconhecem as marcas de todos os salgadinhos mas não sabem os nomes de frutas e legumas. Num jogo desigual e desumano, os anunciantes ficam com o lucro enquanto as crianças arcam com o prejuízo de sua infância encurtada. Contundente, ousado e real este documentário escancara a perplexidade deste cenário, convidando você a refletir sobre seu papel dentro dele e sobre o futuro da infância.

Direção Estela Renner
Produção Executiva Marcos Nisti
Maria Farinha Produções
Ano: 2008
Duração: 49 minutos
Formato DVD
Formato AVI

Veja aqui o documentário

3.11.08

Entrevista com Demétrio Magnoli

Uma vitória da razão

Para o sociólogo, as últimas eleições mostraram que os brasileiros não se deixam mais levar pela conversa de que toda esquerda é boa e toda direita é má

foto Lailson Santos

O paulistano Demétrio Magnoli, de 49 anos, faz parte de uma categoria de intelectuais – rara no Brasil – que se notabiliza tanto pelo conhecimento acadêmico, como pela habilidade para escrever sobre temas complexos de maneira clara e objetiva. Sociólogo e doutor em geografia humana, Magnoli integra o Grupo de Análises da Conjuntura Internacional, da Universidade de São Paulo, e é autor de mais de uma dezena de livros didáticos. Em sua coluna nos jornais O Estado de S. Paulo e O Globo, ele expõe análises aprofundadas de política mundial e críticas incisivas às manifestações de pensamento único na sociedade e no governo brasileiros. Magnoli concedeu, descalço, a seguinte entrevista a VEJA, em seu apartamento, em São Paulo.

Os conceitos de esquerda e direita estão ultrapassados?
Não, desde que sejam compreendidos no marco da democracia. No sistema democrático, há uma tensão permanente entre liberdade e igualdade. A primeira está associada à direita democrática, para a qual existe um conjunto indissociável de liberdades: a de expressão e organização, a econômica e a de pluralidade de opiniões. Já o conceito de igualdade está associado à esquerda democrática, que defende a necessidade de restringir um pouco a liberdade econômica para que as desigualdades não cresçam muito. As democracias maduras oscilam entre a direita e a esquerda, em busca ora de mais liberdade, ora de mais igualdade. Essa é a história das eleições na Europa e nos Estados Unidos no último meio século. Acredito que a história do Brasil também será essa. Trata-se de algo muito diferente dos conceitos de esquerda e direita não-democráticas, estes, sim, ultrapassados.


"O filósofo francês Raymond Aron disse que o marxismo é o ópio dos intelectuais.
Isso porque lhes oferece a ilusão de que são donos de um saber maior: o do fim
da história. É natural que uma ideologia que afirme isso os seduza"



Em certos círculos, dizer que algo é "de direita" serve para desqualificar desde filmes até valores morais. Qual é a explicação para esse uso do termo "direita"?
A palavra "direita" esteve associada no século XX ao fascismo e ao nazismo. Tais regimes foram condenados de maneira absoluta pela população mundial. Em países da América Latina, em particular, a direita foi ligada a regimes militares. Por isso, no Brasil, a expressão "direita" ainda é usada, embora cada vez com menor freqüência, como sinônimo de tudo o que deve ser rejeitado. Já o termo "esquerda" costuma ser relacionado a uma idéia de transformação humanista do mundo, imaginada a partir da Revolução Francesa e das lutas sociais do século XIX. Muita gente esquece que elas, em sua origem, deceparam milhares de cabeças por meio da guilhotina. Assim como esquece a brutalidade do stalinismo e do maoísmo, no século XX.

O senhor acredita que o preconceito contra a direita tende a diminuir?
Sim, e isso acontece quando um país experimenta a esquerda no poder, como é o caso do Brasil, hoje. Nos países de democracia madura, o argumento "isso é de direita" não serve para encerrar uma discussão. Não gosto do governo Lula, mas ele está sendo bom para o nosso amadurecimento político. O PT no poder revelou a esquerda que faz o mensalão, persegue o caseiro, tenta controlar os meios estatais para os seus próprios fins e confunde estado com governo e partido. Com o tempo, os brasileiros vão se convencer de que os partidos de direita e de esquerda devem existir dentro de um mesmo espectro político, desde que aceitem a democracia. Essa mudança de percepção pode ser verificada nas últimas eleições municipais. A classe média de São Paulo, que no passado votou em massa em candidatos do PT, agora elegeu Gilberto Kassab e não o vê como um candidato da velha direita – apesar de pertencer ao DEM, o antigo PFL. Os eleitores não compraram a idéia de que as eleições eram a luta do bem contra o mal, como a campanha do PT tentou vender. O PT imbuiu-se, nessas eleições, da missão de eliminar o DEM. A idéia de eliminar um partido, de centro-direita ou não, é antidemocrática. O que o discurso do PT revela é o desejo de ser partido único. Resultado: a classe média que acreditou no PT agora desconfia de sua natureza democrática.

Pode-se dizer que a ideologia serviu de pretexto para a corrupção do PT?
A corrupção é um fenômeno muito antigo na história do Brasil e completamente suprapartidário. O que espantou muita gente foi o estilo PT de corromper – e que, claro, tem a ver com a sua visão de mundo. O partido apresentou um modo centralizado de praticar a corrupção. Ao contrário da prática tradicional, feita em nome de interesses localizados, o PT deliberou e organizou a corrupção a partir da sua cúpula. Isso provocou uma ruptura muito grande entre o partido e boa parte do seu eleitorado tradicional, principalmente nas grandes cidades.

A vontade de ser partido único não é um anacronismo?
A verdade é que a queda do Muro de Berlim fez muito mal ao PT. O fracasso da União Soviética e de seus satélites no Leste Europeu tirou de cena o foco da crítica petista, que em sua origem repudiava o chamado socialismo real. A partir daí, o partido tomou um rumo regressivo e foi dominado por três grupos. O primeiro é a corrente de origem castrista, representada, entre outros, por José Dirceu. O segundo é o dos sindicalistas, notadamente os que controlam a CUT. O terceiro é formado pelas correntes católicas ligadas à Teologia da Libertação, cujo principal representante é Frei Betto, que foi um alto assessor de Lula. Com isso, o PT adotou uma ideologia retrógrada do estado como salvador da sociedade. Deixou de fazer qualquer crítica ao socialismo real – a não ser em dias de festa, em documentos para inglês ver – e passou a falar como um velho partido comunista de outros tempos. O PT se tornou uma agremiação de esquerda estatizante, para a qual a história é uma ferrovia cujo destino final é a redenção da humanidade – e que vê a si própria como a locomotiva do comboio. Esse é o conceito de história que deveria ter desaparecido depois de 1989, com a queda do Muro de Berlim. Ao encampá-lo, o PT se tornou uma espécie de relíquia.

Por que a universidade brasileira ainda é um centro irradiador do marxismo?
Isso é verdade apenas em parte. Há bastante crítica à esquerda tradicional e stalinista nas universidades. Mas, sem dúvida, é fato que existe um apoio grande a essa ideologia no meio acadêmico. O filósofo francês Raymond Aron (1905-1983) disse que o marxismo é o ópio dos intelectuais. Isso porque o marxismo lhes oferece a ilusão de que são donos de um saber maior: o do fim da história. Como conseqüência, os intelectuais teriam a função de dirigir a sociedade. É natural que uma ideologia assim os seduza. Afinal de contas, dá a eles uma perspectiva de poder, influência e prestígio que o simples compromisso com a democracia não permite.

O que explica a ascensão dessa esquerda obsoleta em países da América Latina?
A falta do espelho do socialismo real na União Soviética e no Leste Europeu faz com que a esquerda latino-americana se entusiasme com governantes como Hugo Chávez. A esquerda latino-americana ainda imagina que deve construir o mundo de novo. Chávez, da Venezuela, Evo Morales, da Bolívia, Rafael Correa, do Equador, e Lula são muito diferentes entre si. Mas o que há em comum entre os partidos e os movimentos que apóiam esses governantes é a noção do estado como instrumento de salvação. Essa é uma idéia fundamentalmente antidemocrática. Não há nada parecido com isso fora da América Latina.


"A hostilidade à liberdade de imprensa é tão ampla no PT que apareceu em uma
resolução oficial da direção nacional do partido, durante o escândalo do
mensalão. O documento acusava os veículos de comunicação de golpismo"


Quem são os principais entusiastas de Chávez no Brasil?
Não é verdade que o PT como um todo siga Chávez, mas existem no seu interior correntes que o fazem. O chavismo exerce forte sedução sobre a sua Secretaria de Relações Internacionais. Acho triste que a direção nacional do partido tenha chegado ao ponto de soltar uma nota oficial em apoio ao fechamento, por motivos políticos, do canal venezuelano RCTV. Essa nota não foi contestada pelos parlamentares do PT de quem se esperaria uma palavra em defesa da democracia, como Eduardo Suplicy e José Eduardo Cardozo.

Como o senhor avalia a política externa brasileira?
A política externa brasileira tem duas cabeças. A oficial, que segue a linha histórica do Itamaraty, e a extra-oficial, que é a política externa do PT, representada por Marco Aurélio Garcia, assessor de Lula, que boicota a diplomacia tradicional. Garcia acha que a integração latino-americana deve ser feita em bases nacionalistas e antiamericanas, quase chavistas. Ele recusa que a América do Sul deva participar da globalização – o que significa recusar a realidade. Por isso, o Brasil deixou de falar duro com Evo Morales diante do aparatoso cerco militar às instalações da Petrobras, das intimidações contra agricultores brasileiros na Bolívia e da ruptura unilateral de contratos que estabeleciam o valor das refinarias. Logo, logo vamos ter uma crise no Paraguai. Temo que o governo Lula faça pouco para defender os agricultores brasileiros naquele país.

O ministro da Justiça, Tarso Genro, o processou em 2006 e depois retirou a acusação. O que ocorreu?
Ele abriu um processo em razão de um artigo que escrevi, intitulado "Ministério da classificação racial". No ano anterior, Tarso Genro, o ministro itinerante do governo Lula, ocupava a Pasta da Educação e determinou que as escolas brasileiras passassem a incluir o item "raça/cor" nas fichas de matrícula dos alunos. Tarso Genro abriu um processo penal contra mim – e por meio da Advocacia-Geral da União – porque critiquei essa medida. Quando foi indicado para o Ministério da Justiça, ele retirou o processo. Imagino que considerou constrangedora a possibilidade de um ministro da Justiça perder um processo. Sabe-se que Tarso Genro, no Rio Grande do Sul, abria processos em grande quantidade contra jornalistas, para intimidá-los.

Essa estratégia de intimidação, aliás, passou a ser muito usada por setores do governo.
Existem divergências dentro do governo sobre liberdade de imprensa. Alguns membros do governo e do PT acham que se trata de um valor fundamental. Outros, e são muitos, acreditam que o país ideal é Cuba, onde há um partido único e um jornal único. A hostilidade à liberdade de imprensa é tão ampla no PT que apareceu em uma resolução oficial da direção nacional do partido, durante o escândalo do mensalão. O documento acusava os veículos de comunicação de golpismo.

No início da década de 90, os pais dos alunos de um colégio tentaram impedir que um professor adotasse um livro seu, sob o argumento de que o senhor era comunista. Sua visão de mundo mudou ou os pais estavam errados?
Minha visão de mundo não é a mesma de vinte anos atrás nem, menos ainda, a de trinta anos atrás. Na faculdade, nos tempos da ditadura militar, eu participei de uma organização trotskista, a Liberdade e Luta (Libelu), cujo verdadeiro nome era Organização Socialista Internacionalista. Quando escrevi meus primeiros livros, no entanto, já havia rompido com a organização e não me via mais como alguém de esquerda ou comunista. Meu primeiro livro didático, de 1989, era detestado pela esquerda. Talvez os pais desse colégio estivessem um pouco assustados com fantasmas do passado.

Como é a relação com os seus amigos que ainda nutrem admiração por figuras como Che Guevara e Hugo Chávez?
Eu não tenho amigos que gostam de Hugo Chávez, Che Guevara ou Fidel Castro. Simplesmente porque nunca tive amigos stalinistas. Eu tenho amigos que os trotskistas consideram pertencentes à direita feroz. Quando convido todos para uma mesma festa, começa um debate que, obviamente, nunca vai terminar. O debate político não deve impedir as pessoas de se tratar decentemente, mas a atividade intelectual pressupõe o exercício da crítica. Intelectuais que elogiam governos têm algum problema. Provavelmente querem um emprego.
Fonte: revista VEJA - Edição 2085 - 5 de novembro de 2008
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Exercício:
O trecho abaixo foi retirado da entrevista com o sociólogo Demétrio Magnoli. A partir da afirmativa, desenvolva uma redação dissertativa argumentando a respeito do pensamento do autor e mostrando exemplos acerca de suas idéias.
"As democracias maduras oscilam entre a direita e a esquerda, em busca ora de mais liberdade, ora de mais igualdade".
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“Salutar só é quando no espelho da alma humana se forma a comunidade inteira, e na comunidade vive a força da alma individual".


Rudolf Steiner
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Atividade:
Pesquise quem foi Rudolf Steiner, escreva um breve perfil dele e desenvolva uma redação com o tema da frase aqui publicada.
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31.10.08

Super Nanny



Super Nanny te faz refletir como a mim? Independentemente de qual tenha sido a origem deste programa, a questão do educar é posta à prova. De pais e filhos. Melhor: de pais capitalizados e filhos capitalizados. Sim! A questão nunca gira em torno da falta de dinheiro, das condições escolares, de política, economia ou algo que o valha, mas na falta de tempo dos pais para com os filhos. Basicamente! O que resulta na falta de atenção. Basicamente! Até que chega a hora e a vez da indisciplina infantil. Basicamente! E não há dinheiro que dê conta, basicamente! É quando entra a figura da babá, super, com suas dicas valiosas:

- pai, brinque com seu filho.
- mãe, imponha limites.
- programem passeios.
- tenham paciência, mostrem caminhos.
- digam o que é certo e o que é errado.
- faça-os entender: a casa, a rua, a escola, o bairro, o mundo.

Mas está aí um sistema de um capital feito para questionar. Enquanto pais, mães e sociedade se anulam para produzir e consumir, crianças ficam à deriva. E o mercado foi esperto. Com pais e mães ausentes, as redes de proteção em janelas e sacadas passam a ser um bom negócio. O nicho cresce: tapa tomada, protetor de quina, trancas para portas e gavetas, protetor de fogão, babá eletrônica e companhia. É que crianças à deriva precisam mesmo de muita tecnologia: computadores e videogames para afastá-las dos perigos das ruas, celulares com GPS para a localização exata do rebento em caso de seqüestro.

Se o futebol quebrava vidraças em tempos idos, e era só confiscar a bola, hoje fica-se em casa. Resolvido o problema das vidraças, das janelas, das sacadas, das tomadas, das quinas das mesas, das portas, das gavetas, dos fogões, dos computadores, dos videogames, dos celulares, dos pais e das mães esquecidos dos filhos. De ensiná-los, de guiá-los, de educá-los física, moral e sociologicamente.

Mas até pra isso o capital deu conta: ligue pra Super Nanny, consuma Super Nanny. A parte boa é que no fundo do baú Mary Poppins da moçoila, os livros e a literatura infantil.
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Analisando o comentário da autora acerca das atitudes dos pais em relação aos filhos, nesta atualidade capitalista, qual você entende ser o ponto central do desencontro familiar: a sociedade capitalista em si ou uma desarmonia nas relações humanas?




Desenvolva seu argumento dando exemplos.


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22.10.08

O caso Eloá: honra e desonra na balança, de quem?

Feminicídio ao vivo: o que nos clama Eloá


por Maria Dolores de Brito Mota e Maria da Penha Maia Fernandes *



Adital - Tudo o que o Brasil acompanhou com pesar no drama de Eloá, em suas cem horas de suplício em cadeia nacional, não pode ser visto apenas como resultado de um ato desesperado de um rapaz desequilibrado por causa de uma intensa ou incontrolada paixão. É uma expressão perversa de um tipo de dominação masculina ainda fortemente cravada na cultura brasileira.


No Brasil, foram os movimentos feministas que iniciaram nos anos de 1970, as denúncias, mobilização e enfrentamento da violência de gênero contra as mulheres que se materializava nos crimes cometidos por homens contra suas parceiras amorosas. Naquele período ainda estava em vigor o instituto da defesa da honra, e desenvolveram-se ações de movimentos feministas e democráticos pela punição aos assassinos de mulheres.


A alegação da defesa da honra era então justificativa para muitos crimes contra mulheres, mas no contexto de reorganização social para a conquista da democracia no país e do surgimento de movimentos feministas, este tema vai emergir como questão pública, política, a ser enfrentada pela sociedade por ferir a cidadania e os direitos humanos das mulheres.


O assassinato de Ângela Diniz, em dezembro de 1976, por seu namorado Doca Street, foi o acontecimento desencadeador de uma reação generalizada contra a absolvição do criminoso em primeira instância, sob alegação de que o crime foi uma reação pela defesa "honra". Na verdade, as circunstâncias mostravam um crime bárbaro motivado pela determinação da vítima em acabar com o relacionamento amoroso, e a inconformidade do assassino com este fim. Essa decisão da justiça revoltou parcelas significativas da sociedade cuja pressão levou a um novo julgamento em 1979 que condenou o assassino. Outro crime emblemático foi o assassinato de Eliane de Grammont pelo seu ex-marido Lindomar Castilho em março de 1981. Crimes que motivaram a campanha "quem ama não mata".


Agora, após três décadas, o Brasil assistiu ao vivo, testemunhando, o assassinato de uma adolescente de 15 anos por um ex-namorado inconformado com o fim do relacionamento. Um relacionamento que ele mesmo tomou a iniciativa de acabar por ciúmes, e que Eloá não quis reatar. O assassino, durante 100 horas manteve Eloá e uma amiga em cárcere privado, bateu na vitima, acusou, expôs, coagiu e por fim martirizou o seu corpo com um tiro na virilha, local de representação da identidade sexual, e na cabeça, local de representação da identidade individual.


Um crime em que não apenas a vida de um corpo foi assassinada, mas o significado que carrega - o feminino. Um crime do patriarcado que se sustenta no controle do corpo, da vontade e da capacidade punitiva sobre as mulheres pelos homens. O feminicídio é um crime de ódio, realizado sempre com crueldade, como o "extremo de um continuum de terror anti-feminino", incluindo várias formas de violência como sofreu Eloá, xingamentos, desconfiança, acusações, agressões físicas, até alcançar o nível da morte pública.


O que o seu assassino quis mostrar a todas/os nós? Que como homem tinha o controle do corpo de Eloá e que como homem lhe era superior? Ao perceber Eloá como sujeito autônomo, sentiu-se traído, no que atribuía a ela como mulher (a submissão ao seu desejo), e no que atribuía a si como homem (o poder sobre ela - base de sua virilidade). Assim o feminicídio é um crime de poder, é um crime político. Juridicamente é um crime hediondo, triplamente qualificado: motivo fútil, sem condições de defesa da vítima, premeditado.


Se antes esses crimes aconteciam nas alcovas, nos silêncios das madrugadas, estão agora acontecendo em espaços públicos, shoppings, estabelecimentos comerciais, e agora na mídia. Para Laura Segato [1] é necessário retirar os crimes contra mulheres da classificação de homicídios, nomeando-os de feminicídio e demarcar frente aos meios de comunicação esse universo dos crimes do patriarcado. Esse é o caminho para os estudos e as ações de denúncia e de enfrentamento para as formas de violência de gênero contra as mulheres.


Muita coisa já se avançou no Brasil na direção da garantia dos direitos humanos das mulheres e da equidade de gênero, como a criação das Delegacias de Apoio às Mulheres - DEAMs, que hoje somam 339 no país, o surgimento de 71 casas abrigo, além de inúmeros núcleos e centros de apoio que prestam atendimento e orientação às mulheres vítimas, realizando trabalho de denúncia e conscientização social para o combate e prevenção dessa violência, além de um trabalho de apoio psicológico e resgate pessoal das vítimas. Também ocorreram mudanças no Código Penal como a retirada do termo "mulher honesta" e a adoção da pena de prisão para agressores de mulheres, em substituição às cestas básicas. A criação da Lei 11.340, a Lei Maria da Penha, para o enfrentamento da violência doméstica contra as mulheres.


Mas, ainda assim, as violências e o feminicídio continuam a acontecer. Vejamos o exemplo do Estado do Ceará: em 2007, 116 mulheres foram vítimas de assassinato no Ceará; em 2006, 135 casos foram registrados; em 2005, 118 mortes e em 2004, mais 105 casos [2]. As mulheres estão num caminho de construção de direitos e de autonomia, mas a instituição do patriarcado continua a persistir como forma de estruturação de sujeitos.


É preciso que toda a sociedade se mobilize para desmontar os valores e as práticas que sustentam essa dominação masculina, transformando mentalidades, desmontando as estruturas profundas que persistem no imaginário social apesar das mudanças que já praticamos na realidade cotidiana. O comandante da ação policial de resgate de Eloá declarou que não atirou no agressor por se tratar de "um jovem em crise amorosa", num reconhecimento ao seu sofrer. E o sofrer de Eloá? Por que não foi compreendida empaticamente a sua angústia e sua vontade (e direito) de ser livremente feliz?

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Notas:

[1] SEGATO, Rita Laura. Que és um feminicídio. Notas para um debate emergente. Serie Antropologia, N. 401. Brasília: UNB, 2006.
[2] Dados disponíveis em: http://www.patriciagalvao.org.br/apc-aa-patriciagalvao/home/noticias.shtml?x=1076


* Ma. Dolores: Socióloga, professora da Universidade Federal do Ceará / Maria da Penha: Inspiradora do nome da Lei Federal 11340/2006. Colaboradora de Honra da Coordenadoria de Políticas para Mulheres da Prefeitura de Mulheres
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Atividade:


Após leitura do texto faça uma coletânea de trechos publicados na imprensa que indiquem a "supremacia do homem sobre a mulher", ou em que a mulher seja subjulgada ainda que indiretamente seja pelo repórter, pela narrativa, por testemunhas etc.




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